Lugar de fala cansada e a exclusividade das autoras invisíveis

As mulheres artistas no Brasil continuam vivendo as específicas adversidades de produção e circulação e tentam – com mais força a partir de 2014 – burlar o destino da invisibilidade, agindo em experimentações de arranjos cooperativos, resgate de memória, espaços e editais inclusivos, etc. É preciso, apesar dos bons olhos com que se lê essa informação, que se perceba o perigo que vem sendo cada vez menos iminente e mais atual.

Quando o movimento feminista estourou aqui, as redes se encheram de palavras e formulações novas a serem aprendidas, uma delícia se deparar com uma gaveta vocabular que não dissesse respeito aos como sempre, homens. Repetia-se, repetia-se, repetia-se e uma sílaba reproduzida de forma diferente ganhava a dimensão atenta ao possível erro. Um dever absoluto de não falhar no discurso manteve as formulações bem sólidas e não passageiras – pela seriedade que se deu ao assunto. Porém, o aprofundamento massivo das palavras não aconteceu conforme se passou o tempo, sendo igualmente absolutas as condutas a serem seguidas, quase como um manual da libertação, enrijecido e empobrecido de prática efetiva. Antes, em cópia-cola, agora em colagens sobrepostas.

O anterior “você não tem lugar de fala” se tornou “precisamos de mulheres ocupando esses espaços pois é importante se falar dessas problemáticas”; delegando assim às mulheres a função mais óbvia e urgente, de falar sobre isso, de ser mulher e fazer “arte de mulher” – antes delicadas, agora temáticas. Pois, se apenas as mulheres podem e devem abordar, apenas a elas resta o trabalho de fazê-lo. E se, como de costume, não houver presença feminina ou houver pouca, sequer a discussão é feita.

Surgem então espaços exclusivos para produções de mulheres organizados por mulheres, e não é surpresa que grande parte das produções femininas atuais consigam circular apenas nestes meios e para o mesmo nicho presenciar. Afinal, é o espaço destinado e mais adequado para se assistir sobre e, quanto mais espaços destes são criados, menor é o interesse de abrigarem essas mulheres nos espaços tradicionais de circulação. Cria-se um mercado à parte,  que não dá conta da pluralidade do conteúdo e ignora o problema do mercado geral em si. Que além de ser uma questão de dominância masculina, contra qual deve-se continuar questionando na prática, é também um modo completamente nocivo ao fazer artístico no país – concentrando verba em mãos específicas, minando as possibilidades de circulação de obras, tornando as relações hierárquicas e grupais e as produções rasas, feitas apenas para repetição de fórmulas do sucesso garantido.

Na medida em que as mulheres se realocam, na tentativa de criar um mercado parecido e/ou de se sobressaírem a ponto de futuramente alcançarem lugares nos circuitos tradicionais, tais circuitos apenas ganham com uma crítica a menos – e cumprem a cota de produção feminina, normalmente com alguma obra comercial que aborde o tema, ficando famosa e aclamada pelo feito (e a cota é conveniente, uma vez que o tema se tornou produto lucrativo). É necessário que se critique: as produções que estão rodando não têm atravessado fronteiras além de algumas geográficas. Tem-se reverenciado qualquer obra dita “contém esta temática” que seja impulsionada pelo mercado, nitidamente as mais comerciais, as que menos possuem liberdade criativa e algo de fato a ser dito – o que também é nítido ao se analisar a exaltação de obras internacionais pelo mesmo motivo. Além de individualizar a conquista como “autora empoderada”, pela questão da representatividade identitária exaltam-se produções medianas apenas por conterem o assunto, independente de ser feito de forma banal, pouco criativa ou afins. É o feminino “palatável”, com o qual as reconhecidas grandes mídias também já fazem lucro.

Perdidas pelos espaços não-oficiais dedicados para mulheres, tentam sobreviver as obras não-mercadológicas, as que se realizam de maneira distinta e trazem questionamentos mais severos e relevantes. Obras estas que também não circulam nos espaços não-oficiais amplos (sem distinção de “minoria”), uma vez que acabam sendo consideradas temáticas demais ou não cabendo em certas situações, com a desculpa de que “são ótimas, mas talvez um evento só para elas seria melhor”. Ou seja, evento que só atrai um tipo de público específico, não gerando assim, incômodo algum. Tudo vira entretenimento.

É preciso que mulheres ocupem os espaços, porém não apenas para falar sobre questões do ser-mulher. Simplesmente precisam porque têm o que falar sobre qualquer coisa e a vida se ocorre além. A mesma tecla batida de que apenas elas podem mencionar seus problemas enquanto grupo está se esgotando cada vez mais, continua colocando-as em segregação e como peças chaves, novamente, para manutenção desse tipo de política-artística. Repetir o trabalho das falas necessárias por saber que ninguém mais fará: o peso da responsabilidade tem que ser retirado das costas delas para que ganhem corpo possível, para que possam falar sobre qualquer coisa, produzir história, política, arte, estética – e não se fixem obrigatoriamente no discurso designado. A responsabilidade é social, as questões femininas devem ser abordadas e brigadas por todos. Todos estes que continuam avançando nos discursos enquanto as mulheres estão com suas falas “lugarificadas”.

 

lugar de falar

mix-tipificado

Uniria o antropofagismo
os índios
à bandeira nacional sendo menos, enfim,
flâmula

Eis agora; uniu tanto
que esqueceu ao cifrão
oportunismo:
serão um só povo, índios
os sábios da primária
glândula

Em interesse de órgãos e
ordens outro,
a mistura no liquidificador
das frutas

Mais frutas!,
Mais frutas!, Mais sabor

Nasceu de onde esta? que se perdeu
Será a salvadora da mátria
a energia elétrica

br

Minha letra é um fogo sujo
apropriado da interpretação falha
e bem-vinda
do idioma outro

A letra dele é um fogo sujo
traduzido automatismo virtual
os 13 anos do menino

A poesia se alastra
imunda

Às brechas das máquinas:
brasas!

.

caminho eu vou
volto e paro mas não duro. o chão onde estou
tem frequência de me cansar os pés

quando falo fadigo de minha voz
as pessoas e as pessoas
apreciam muito a fala e eu me canso e vou
durante, calada
na solidão,

amplifico o tom abaixo, mais fino
quando quero e faço
penso se mantenho os convívios como
matéria de fazer artístico
seria essa minha missão divina? mais diabólica
à quem diga “egoísta”.

esboço

Mortas velhas, eis a elas,
tantas escrituras resgatadas
E esta geração audaz
cujo empenho obcecado em três aspectos esmorece
o resto: este texto, eis.

ele, que nem a coragem ativista suporta sob
sua doce viciada
vista

Hilda
morta velha
a quem, como norma, nem a
flacidez adianta

jovem estampa:
belas as capas
jovem estampa revolucionária
contra-capas! Nem elas,
oposições fáceis como a nova esquerda
identitária

Cansada das margens
Ana em pulo, plácida
não tão infanta quanto o que
virou sua cara – azul e rosa, óculos de sol –
eterna prosa poética jovial

talvez a ela mais fiel
o abraço da morte que se repete
após que se morreu:
acelerada

uma a menos
sem sucesso no escape

Não se escapa.
Vendemos rosto e de nossos versos,
esboço.

Edição comemorativa Charitas com fubá

Minha cidade com outras –
coisas parecidas. dentro dela são várias
as empresas de monopólio das distâncias fabricam saudades
e reverenciam nobres cadáveres

Hoje, dia inaugural
buraco no meio de montanha
à esta obra, prima da irrelevância rocha
e irmã da valoração urbanística,
deram nome esperadamente coeso:
algum falecido, este
Fulano P. Nunes

Descobrimos a história e o batismo –
eu, minha mãe e o avô
comendo pastel no vento
sunga azul vestia um senhor – trabalho da esposa -,
que reclamava o P.: inconformava-o o ponto
“P. de quê? É, puto! E isso era mesmo.”
contava pro vento enjoando a engolida
e a letra não de raiva mas p. da pornografia

Pouco a Pouco teve o pastel o gosto
das moças comidas
minha mãe me disse
“Vire para lá, tem outra vista”

e nada:
veio o moço ao meu avô
“você conheceu meu tio, morreu
com um milhão de anos, jornalista?, vou processar a P.refeitura”
o avô, quase osso; não virou
mamãe compensou as tarefas: não conhecemos

O azul pesou
a resposta “olhei achando que ele fosse escritor algo
do tipo, jornalista,
vou ligar para a redação, é Pimentel!”

Meu avô, poeta, com tanta idade à surdez do engodo
poeta não o escutava em nada mas em corpo, como obra, respondia
a responsabilidade da palavra

Voltamos à casa,
trancei os cabelos e os fios
de minha família.

ddd

na matéria de amor nenhuma é herói
pela falta dos contos não há conto para nós
mas este, pra mim
e só –
por agora não querer falar por tantas
e portanto parecer egóica –
não ligo,
sinto muito por ligar números
sem ter tido a dedicação à matemática
tanto como me propuseram ao subjeto
falho não nos problemas mas nas soluções que não sei –
acumulo contas e me peso,
caio por cima de alguns e os peso
ainda mais quando algo os peço sem a dimensão do cálculo
exigido
há dias tento mas não me dispenso
enquanto cada instante mais me despeço,
tentada por alívio das exatas e ao mesmo tempo permanecendo,
cultivo o dúbio desejando que sejam sérios e longos
até logos
sem desejo disso ao fundo
raro quem goste dos números, inclusa eu,
por alguma razão que não a é, continuo tentando as calculadoras com estas gentes
posso pensar agora que é este o erro
e esquecer o apesar
que a mais doída experiência foi com algum que muito gostava.