Vizinho,

talvez o mundo lhe pareça pequeno
talvez essas calçadas te satisfaçam
e essas pessoas que passam
lhe sejam suficientes.
Mas não se espante
se eu te mostro o contrário:
esse mundo é gigante!

Talvez eu cante, dance, te encante
Amanheça com outro ser amante…
E você talvez não entenda
O quanto me importa ocupar esses cantos
E do pássaro o canto compartilhar.
Esse grito da cigarra me renasce
Mas a da outra rua também há de soar

Vizinho,
não me olhe assim
se escorro tua normalidade pelos dedos
se eu digo que é bonito ter pelos
E amar quem eu quiser.

Não me olhe assim
se bagunço tua moral branca
quando passo com um corpo preto.
Se eu te mostro que assim como você,
eu tenho peitos
e que com muitos me deito,
e de tão amores, não me importa o gênero.

Vizinho,
não se assuste demais
se eu te contar que suas drogas é que são pesadas
que seu refrigerante te mata
e o que nasce na mata, verde
é o que você proibindo maltrata.

Vizinho,
eu não entendo: por um beijo tanto alvoroço
se somos todos de carniosso
e não entendo, se tão semelhantes somos
ainda te incomoda
meu corpo, meus afetos
Me afetam tuas regras

Vizinho,
tem mulher gozando enquanto você reza
enquanto gasta água pra limpar sua calçada
que é pequena, mas enorme fica

diante da seca nordestina
que também nos destina.

Se espante agora, vizinho
e repara quão longo é esse caminho
Quem sabe, feri sua moral heterocristãbranca
mas sou ferida desde criança
E depois de tanto texto, falará:
“Ela não cansa!?”
E eu canso, te digo
Cansei, e é por isso
E meio livre assim, o mundo é mais bonito
é mais meu, e eu sou mais mundo

Desculpa por tanto tempo que passei mudo
Mas havia uma coisa.
Uma muda que permiti brotar em mim,
e que agora grita: MUDA!

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Flor-essência

Da terra me floresci
Me vi, me senti, me surgi
Do cio brotante do chão
Do grão no vão dum ser
Tão frágil e farto
De opressão que assola
O solo e arranca a sola
Que daria piso ao sustento
E tento, sem razão, já sendo
Me sento no mundo,
de novo me sinto
Parte do todo, do novo, do outro
Eu, todos nós, desatando e refazendo nós
Soltáveis de tão laços
E sem passos como aço
Que não ocupam os espaços…
Semear os frutos impuros de reais
E que a moeda real, tão impura
Extinta seja; e veja, utopia?
Que seria, lindo
O mundo com pés descalços
Com belezas despidas
E alçadas de amor
Que do chão brotará em cada ser
Tão forte e tão tudo,
Tão outro e tão desnudo.
Mudo, como o giro constante
E bebo do suco de toda roda que surge
Ressurjo e me sujo de vida,
Me sangro do sangue da terra
Que avermelha a existência
E urge por nossa florescência.