Sobre ciúmes e a posição da mulher na luta não-monogâmica

Quando eu comecei a me relacionar de forma livre, foi com um cara mais velho, mas era tudo muito novo. Inclusive eu. Vale colocar aqui que isso sempre acaba sendo bem delicado, porque a mulher já tem seu papel submisso reservado no mundo. Em uma relação com um homem mais velho, mais reservado ainda: você precisa aprender muitas coisas, e quem está ali pra te ensinar – com o poder do conhecimento e experiência -, é o homem.

Então foi assim. As coisas aconteciam e eu me esforçava pra entender e me adaptar. Ele beijava outras moças na minha frente, convivia com muitas pessoas e amores. Mas de certa forma focava a relação em mim. Eu nunca fui ciumenta e era fácil lidar com tudo isso.

Um tempo depois eu comecei a me relacionar com outras pessoas e percebi que isso não estava sendo da forma como eu imaginava: o rapaz não respeitava meu espaço, reclamava comigo e ainda me colocava como culpada.

Exemplificando: quando me via com um homem, ele vinha e me dava um beijo pra marcar território. Vez em quando dizia que fazia de tudo pra me ver e quando chegava, eu estava com outro e que isso o fazia mal. Vale acrescentar que não havia combinado encontro com ele, e estava apenas conversando com o outro rapaz. Quer dizer, vale acrescentar isso apenas porque ele realmente me tornava culpada, me fazendo esquecer que quem estava errado, e censurando minha liberdade, era ele.

Pra isso existe um nome: GASLIGHTING. Que é, resumidamente: uma pessoa agir de forma com que você passe a duvidar de si mesma, fazendo você se sentir culpada (mesmo sendo você a vítima), duvidando do seu próprio caráter. É óbvio que isso costuma acontecer em relacionamentos entre homem e mulher.

Certa vez, esse homem me disse o seguinte, após beijar uma de suas amigas: “seria muito legal arrumarmos uma menina pra você ficar hoje!”

Começando minhas reflexões. Temos aqui um homem, mais velho, tentando ensinar uma menina o que é amor livre. Um homem que acha legal que a mulher se relacione com outras mulheres, mas não com outros homens.

Misoginia: o cara despreza as mulheres, as relações entre elas, e fundamenta tudo isso na inferiorização das mesmas. Porque claro, uma mulher não representa uma ameaça aos pés da que um homem representaria. Fora a parte da fetichização. Homens, entendam: as mulheres se amam e não fazem isso pra agradar vocês.

E sobre não permitir relação com outros homens: ciúme. O que ciúme sugere é um sentimento devido a falta de exclusividade. Tem sensação de exclusividade quem tem posse sobre algo, controle, poder.

O ciúme dos homens vem disso: posse, controle e poder sobre as mulheres.

Continuando a historinha: esse mesmo homem, após alguns meses, passou a se relacionar com outra moça e me contava que era tudo muito difícil, que ela não entendia a forma livre dele de ser, não se esforçava e que ela tinha muito ciúme. Depois me contou que a tal moça, um dia, foi contar a ele que havia ficado com outro homem. E ele, contando, me disse: “mas como ela não entende, ela veio me contar se sentindo culpada, com ar de quem fez coisa errada, sabe? Então eu fiquei chateado, claro.”

O que é isso? Sim, a mesma coisa que aconteceu comigo. Ele podia ser livre, mas ela não, e ainda colocou a culpa nela por fazê-lo sentir ciúme (posse, poder, controle, exclusividade). E mais uma vez, Gaslighting.

Agora vamos pensar sobre o tal “ciúme” e a falta de esforço dessa moça. Não só dessa, mas de todas as moças. Nós, mulheres, somos ensinadas a competir umas com as outras. A fazer o melhor o tempo todo pra agradar o pretendente. A ter o corpo perfeito. A fazer direito pro cara não ter que procurar na rua. Somos ensinadas a ser monogâmicas.

Somos ensinadas que o certo é buscar um homem para a vida toda, alguém que nos dê segurança (física, econômica, sentimental). Alguém que cuide de nós. Porque não nos ensinam a nos cuidar, a nos amar e a nos proteger. A nos fortalecer. Não nos ensinam que podemos fazer isso, para que então nós precisemos da figura masculina pra cumprir esse papel. Enquanto os homens são ensinados a tudo que é oposto a isso, e a terem muitas mulheres.

Pra ilustrar: quando, num casamento, o marido passa a se relacionar com outra mulher, é comum que a esposa (por conta dessa educação toda que nos é destinada) desenvolva grande ódio por essa mulher. E pelo marido não. E ela ainda vai se sentir péssima, por não ter feito tudo de forma boa o bastante para que ele não precisasse buscar outra.

Enquanto os homens são ensinados a ser livres, as mulheres são ensinadas a ser decentes. A se darem ao respeito. A “sociedade” não enxerga com bons olhos a mulher que se relaciona com diversas pessoas. Muito menos com diversas pessoas ao mesmo tempo.

Dessa forma, homem e mulher não ocupam a mesma posição na luta não-monogâmica.

As mulheres sentem insegurança, se sentem inferiores. Isso é fruto de uma educação machista e patriarcal. O ciúme das mulheres não diz respeito ao controle sobre o corpo do homem, sobre posse em relação ao mesmo. Diz respeito ao que ela foi ensinada a ser, a posição que ela foi imposta a ocupar. A não se sentir boa o bastante. A mulher foi ensinada a se sentir uma bosta quando seu companheiro está interessado por outra mulher. E aí, a gente pode chamar isso de ciúme? É certo culparmos uma mulher por isso? Não.

O que a gente chama de “ciúme”, quando se trata da mulher, deve ser combatido. Mas não porque é ciúme. Não é. Não é poder, nem controle, nem posse. Mulher não tem esse poder sobre o homem. É justamente insegurança por não conseguir ter poder suficiente pra conseguir exclusividade (desejo consequente de um sistema que visa a propriedade privada, competição, etc). É a mulher ser ensinada a ser dependente. A não ser auto-suficiente. É fruto do privilégio do homem. E não é culpa dela. Homens devem retroceder. O que os homens vão chamar de ciúme, ao se referir a uma mulher, é conseqüência de um poder que ele exerce, que ele sustenta e que ele construiu/constrói.

Um homem que não apóia a emancipação de sua companheira, e muito menos a ajuda nesse processo, inferioriza a mesma quando ela demonstra “ciúmes”, não reconhece seus privilégios e nem retrocede, é um homem que não está fazendo nada de diferente. E essas relações “livres” serão iguais às relações monogâmicas, em termos de poder sobre a liberdade do outro.

É fácil pra um homem culpar sua companheira por falta de compreensão, enquanto ele sempre foi livre o suficiente pra exercer sua liberdade sobre ela.

Então, é muito ruim achar que mulheres estão em equidade nessa luta. São outros enfrentamentos, outras desconstruções. Se o homem não se dispuser a rever seus privilégios, numa relação hetero – principalmente -, sempre haverá reprodução de valores patriarcais, machistas e misóginos. E por que estamos nessa luta? É pra simplesmente poder “estar” com muitas pessoas?

Passando por meu texto anterior a esse (Sobre aquela mesma coisa de sempre disfarçada de amor livre), reafirmo que as mulheres continuarão sendo produto adquirido por esses homens, que exercerão sua liberdade violenta disfarçada de “amor livre”. E não vai ter amor, não vai ter cuidado, não vai ter compreensão com a parceira. Esses homens continuarão colecionando mulheres. E por serem mulheres lutando pela não-monogamia, serão lidas como “disponíveis para sexo”. E então eles terão o aval do “amor livre”, tão lindo e admirado, para simplesmente continuarem reproduzindo o que sempre reproduziram. Vivendo um amor neo-liberal, que transforma tudo em mercadoria para benefício próprio.

Como eu imagino, a luta pela desconstrução da monogamia – como sistema imposto e sustentador de diversas outras imposições – é uma luta por emancipação.

E enquanto não pensarmos, não lutarmos e não darmos espaços para as emancipações da mulher, da negra, do pobre, de todos os grupos oprimidos, não haverá nada de diferente do que havia nas relações monogâmicas.

Vale atentar ao fato de que, assim como a mulher não está na mesma posição de liberdade que o homem, diversos outros grupos lutam de posições diferentes. Uma mulher negra não está na mesma posição de liberdade que uma mulher branca, um homem negro não está na mesma posição que um branco, uma mulher gorda não está na mesma posição que uma magra, o burguês não está na mesma posição que um trabalhador, uma pessoa cis não está na mesma posição que uma pessoa trans, etc.

Ao ignorarmos a existência de diferentes posições de poder, daremos espaço para que as relações livres conversem apenas com grupos que estão suficientemente livres para poderem participar. Ou seja: homens cis, brancos e heteros, $. Que permanecerão em suas posições, apenas continuando a exercer poder sobre as outras tantas mulheres e grupos oprimidos, desprezando suas posições e colocando um rótulo de incapaz.

Não existirá relação livre, enquanto a maioria – que ainda é tratada como minoria – não for livre.

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Sob falsas regalias

De todos os caminhos
terrestres,
direitas, esquerdas
nortes e nordestes;
largos, estreitos
noites e anoiteces
De todos os caminhos
terrestres
Nos destinaram apenas
a faixa
de pedestre.

O resto das vias,
pesadas, impróprias,
dilatadas, vazias
Espantoso, mas não rias:
A quem portar motor
que pre$te.

O resto das ruas,
cinzas, perdidas,
escuras, cruas
Aos homens ligeiros
de pés esquecidos
guiados pelos ponteiros.

Às rodas sem ritmo,
sem samba,
ciranda
ou melodia
que atropelam a calma
levando pra longe o que a gente
já esquecia.

Por tudo e tanto que o Estado
me escondia, me privava,
sob falsas regalias
Já não temia.
Basta dessa vida arredia.

Sobre aquela mesma coisa de sempre disfarçada de amor-livre

Já faz um tempo que não estou buscando (mais) uma relação sexo-livre, como as outras que eram comuns me acontecerem – por alguns motivos que vou explicar mais pra frente. Mas como as coisas vão acontecendo, organicamente, por elas mesmas, a gente muitas vezes perde a racionalidade e deixa acontecer. Tudo bem, embora eu não busque, é bom (exceto pelos motivos que me fizeram encher o saco disso).

Pelas minhas experiências nesse tipo de relação, e observando o que acontece de forma parecida nas outras – principalmente com as moças -, consigo perceber que alguma coisa bem estranha acontece nesse universo.

As pessoas com quem desenvolvi, até sem saber, relações sexo-livre são geralmente: homens que buscam/lutam (ou pelo menos mantém esse discurso) para se afastar das amarras monogâmicas. Com a posição de “amor sem posse é possível, o amor é livre”, etc. Muito bonito, muito harmonioso. Só que pelo que pude perceber, é que eles acabam não mergulhando, e sim só molhando os pés.

Abrindo um parênteses imaginário pra explicar melhor: eu busco me relacionar de forma diferente e, usando de comparação ou pequena análise, as pessoas podem me enxergar no grupo de pessoas “livres”. Ou seja, estou disponível, assim como não vou encrencar com nada também. Então conheço essas pessoas, trocamos muitas ideias interessantes e na semana seguinte tomamos uma cerveja, nos beijamos, transamos. Aí isso se repete algumas vezes, mas as trocas de ideias vão sendo bem escassas, o interesse no outro menor ainda. Mas eu permaneço sendo alguém disponível para sexo.

Enquanto eu desenvolvo um grande apreço pela pessoa, por poder compartilhar com ela algumas trocas (ideais e corporais) – tendo ela como personagem vivo e presente no meu processo de desconstrução, o mesmo não acontece de forma recíproca.

Nos encontramos algumas vezes, – por acaso, na maioria delas -, um “oi, tudo bem?” esquisito, seguido por um beijo (beijo esse que não é a demonstração do carinho/apreço/afeto, e sim apenas um passo pra ter certeza de que o sexo ainda pode acontecer). Então esse beijo aceito significa que sim, o caminho continua aberto e sim, eu ainda faço parte desse universo dele. E aí, foi só um beijo, dois beijos e lá vou eu novamente sendo guiada pra um sexo completamente estranho, mas bem comum, disfarçado de liberdade – onde eu não me sinto nada segura.

Esses caras não vão criar vínculo nenhum. Não serão pessoas que falarão “oi, tudo bem?” realmente importando-se com isso, porque não se importam. Quer dizer, percebo que os homens chegam até mim demonstrando interesse, falando de relações livres e de como o mundo é bonito. E depois que dormimos juntos, o objetivo “livre” já foi alcançado e eles podem continuar vivendo normalmente e me colocando na lista de pessoas disponíveis. O que é isso senão continuar reproduzindo a ideia pessoa-produto? Ou, no caso, mulher-produto.

Aprofundando na minha situação enquanto mulher na posição sexo-livre: os homens não me consideram uma pessoa para somar, trocar. E sim pra fugir do usual. Inclusive muitas vezes percebo que na verdade eles estão até buscando um amor romântico e fantasiado com alguém, paralelamente, mas mantendo o discurso amor livre comigo pra ter sexo livre.
Quero dizer que é fácil gritar amor livre aos ventos. Qualquer um pode fazer isso. Mas o que eles estão fazendo de diferente? Se antes de questionarem a monogamia, eles também tinham várias parceiras sexuais, sem envolvimento, preocupação e cuidado – e ainda com respaldo pra isso? Não só respaldo, como também um grande prêmio por isso. Na verdade o que acontece então é a mesma coisa de sempre, mas com um nome diferente. Ou seja, sem desejo algum de realmente criar laços mais verdadeiros.

Não reduzo esses laços apenas às relações nesse campo, repensar nossas relações significa olhar pro que o capital impõe. Falta de tempo, competitividade, pressa, não ouvir o outro, não se importar com o outro. Falta de presença nas relações, de ser, de estar, de disponibilizar a sua existência. Só que romper com isso é um processo. Um processo a ser descoberto e construído de forma individual, mas com toda certeza coletivamente. Isso envolve diálogo, verdade e presença.

E eu não estou esperando um amor romântico de filme, que a pessoa se apaixone por mim loucamente. Pelo contrário. Eu luto pra que a gente se importe um com o outro, eu espero que o porteiro do meu prédio sinta-se amado quando eu pergunto se ele está bem, porque eu espero que ele esteja bem e espero que ele sinta-se confortável pra me pedir ajuda. Porque sim, as pessoas precisam de ajuda, precisam da relação com o outro de forma verdadeira (e o caos se sustenta justamente nesse afastamento, nesse não estar presente. E é contra isso que estamos, ou não?)

Eu até gosto de sexo-livre, quando a relação me deixa bem consciente do que tá acontecendo. Eu tenho tesão, gosto de dividir essa disponibilidade com alguém. Sexo é divertido, gostoso, saudável. Mas são pessoas. Ou seja, são pessoas com quem me relaciono. E pra mim, por ser mulher, preciso parar e pensar a cada momento sobre qual papel eu estou ocupando.

Resumindo: ter sexo livre da forma sacaneada como ele acontece, principalmente pras mulheres, não vai sanar minha sede por relações verdadeiras num mundo caótico. Não vai.

Relações livres, ou qualquer uma que se disponha a questionar a monogamia, não diz respeito a quantos parceiros sexuais você tem. E sim à forma como voce se relaciona.
Percebo que repensar isso – falando pessoalmente – significa transformar como eu me posiciono diante das outras pessoas. Refletir que situações de poder existem em toda relação, seja ela “amorosa” ou não. E que precisamos nos cuidar, ajudar o outro a se cuidar e cuidarmos juntos. Até poderia fazer considerações sobre a dificuldade da mulher (e de diferentes “ser mulher”) nessa desconstrução toda, mas prefiro deixar pra outro momento.

E é com muito auto-cuidado que escrevo. Esse texto começou com uma vontade de tornar explícito algo que me incomoda. Mas é um texto pra mim, antes de tudo.

Cuidando pra que não aconteça da forma que eu não gosto. Como proteção, auto-cuidado, por saber a minha posição.