Espaço-me

O controle da vida. A cidade abriga ou engole?
Dou um gole na minha cerveja.
Gelada. Desconhecida origem.
Pra quê saber?

Alívio.
Minutos. Memórias. A cidade abriga ou engole?
Dou mais um gole na minha cerveja.
Uma hora e vin… Lembro. A cidade engole.

Dou mais um gole na cerveja
Que me abriga.
Mas que nem é minha.
E eu sei.
O que me obriga
a esquecer
Que sou engolido
E o que é
eu não sei.
Mas existe, sinto.

Dou mais um gole
Para que isso seja extinto.

Mas logo lembro
De minha condição fêmea
O Humano ao lado pressinto.
Engolida, corrijo-me.
Recolho-me.

Eu fujo da gula da cidade ou fujo do Humano?
Agora já não sei:
Esse copo de cerveja me acalma
Ou vai ajudá-Lo a levar minha alma?
Logo eu que nem nisso acredito.

Em quê acredito?
Quando dito a rua é minha
Sei que não é.
Minto?

Isso funciona como a cerveja, reflito.

Mas logo tornam a me relembrar
Que o espaço eu não habito.

Cercam-me, controlam-me.
A autonomia, ainda que tente,
Entre feridas e mortais cortes
É inexistente.

Com o copo de cerveja na mão,
Ainda cheio
E ao mesmo tempo vazio de sentido
Sem espaço para enchê-lo de importância,

Penso,
com a mínima autonomia que me continua:
O que há em comum entre eu e a rua?

Ela, que pra mim é tão insegura.
Controlada. Cercada.
É visível, somos parecidas.
Sinto que mal não a faço
Entretanto, ela me fere
Não importa a rota que traço.

O que me engole?
A cidade ou Ele?
Humano.
Me privam da cidade.
Me privam de ser Humano.
E o Humano se engole
Pela própria gula
Despercebida.
Mas eu…ai.

Olho novamente para a cerveja.
O copo cheio e ao mesmo tempo vazio.
Sem espaço para enchê-lo de importância.
A rua cheia e ao mesmo tempo vazia
Sem espaço para enchê-la de vida.
Eu cheia e ao mesmo tempo vazia,
Sem espaço para exercer minha insignificância.
Que desde a infância aprendi.

Vida que jazia
Assim que nascia.
E mesmo estando ali,
Sabia que era intrometida
Ou melhor,
Era vida
Vendida.

Respiro.
Temos tanto em comum.

Penso.
Com a mínima autonomia que me resta.
Logo eu que nem nela acredito.

A rua deveria ser conjugável,
O espaço público
E a cidade habitável.
Vejo lutas por isso.

As vozes protestam e ocupam.
Essas vozes que engolem a minha.
Mas ainda que Humano eu não seja,
– Eu, fêmea –
Berro.

Impulso que urge
Resgatando cinzas de poder
Interno.
Eu não posso me conjugar,
Mas essas vozes insistem em fazer isso
No meu lugar.
Meu?

O que há em comum entre eu e o espaço público?
Sofremos privação de ser,
E dizem que somos livres.
Mas de jeito único,
Pública somente eu continuo.

Violentada e dizem que
Sinto prazer.
Assim como o espaço,
Transformam-me em lazer.

Um lazer privado, com donos
Posses.
Copo cheio.

Por que o espaço público então me engole?
Inimigos distintos, mas ao mesmo tempo nem tanto
Tampo os olhos e respiro, ou ao menos tento.
Ainda que isso me enrole,

Sei que existe.
Sei que existo.
Essa concretude presente
que já não me ilude.

Forças de origens desconhecidas.
Que na verdade até conheço.

Mas de que me importa saber,
Quando sobreviver é começo?
Quando ser
é artigo de luxo e apreço.

Então apareço.
Ainda que nua
Carne
Disponível
Fêmea.
As cinzas serão reacendidas.
Há de ser meu o fogo
Que ainda me queima.
Espaço-me.

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