Ali inscrito

A ponta dos dedos
ali
onde o toque se infinita
onde a carne se mistura
onde o contorno carece textura
ali
onde se instiga
onde se interessa
onde o tesão perfura
Quando na saudade escreverá o outro
com essas mãos dele contaminadas
logo ele outro se fará perto
na folha de papel mesa ou chão
onde ele for escrito
inscrito já estava em suas palmas
Se reescreve o outro
eternizado no tato
transforma-o em qualquer texto
formato
parece vontade de letra
virar pele
Cuidado no engano
palavra também fere

eu nem queria escrever isso

Meu amor eu não queria dizer isso
O mundo me fez como mármore e ao limite como asfalto
Agora já não sei gritar alto, por vezes meu silêncio perfura
Da rua me contaminam dejetos e uma poeira humana impura
E minha sujeira tambem é contagiosa
Nao me envergonha, porque é.
Me interessa aprender pedir desculpa,
Porque, meu amor, a vida me fez tao dura.
Esses olhos veem hoje ao meu redor ameaças ao resto da minha candura
Meu esforco agora se volta pra sentir de novo sua palavra e sua doçura, e meu amor, me desculpa, às vezes isso em mim nao dura.

Agente

Tu fora de mim
Eu de ti
A gente
Não
se adentra
Muito menos
Se atenta
Eu
Te julgo
Dis
.
.
.
Tante
E tu
Me
Julgas
Dis.. -~..per.,;sa
Eu culpo
Seu CELULAR
e você
Aminhapressa
A verdade:
>>>o dispositivo individual é o que menos interessa<<<
Essa
Qu. …..i..lo…me…trag. …em abis
.
.
.
.
mal
(Dentro) de nós
Já foi impressa
Eu )fora( de ti
Eu ]fora [ de
Mim
Tu
>fora < de nós
E de
sci
.
.

Em 2015

Uma lágrima escorregou do meu olho esquerdo
Trilhando um caminho novo
Escalou meu nariz e mergulhou em meu olho direito
Alguns meses depois ela novamente fez-se gota e, dessa vez
Deslizou do olho direito e se escondeu no meu ouvido.
Após essas suas viagens, dentre outras não mencionadas,
Tomou-me um pico de total apatia e mal pude recordar do que impulsionava sua partida
Então, espantada, pensei:
Não.

Mancha

Tenho em mim há 8 meses uma mancha turva alguns dias ela tem estranha textura agarrada em minhas entranhas não consigo limpá-la nunca por completo ela parece bastar-se em si reproduz-se de si e de si alimenta-se nunca morre eu sinto ela viva às vezes dorme às vezes grita. Acho que se instalou no meu peito na verdade eu não sei mas os amigos falam que neles ela é no peito então suponho que a minha também seja. Pensando bem se ela fosse autossuficiente eu não ficaria assim tão cansada certamente ela usa algo meu afinal ela tem vida. Até tento ser generosa e ajudá-la que tanto precisa de mim às vezes deixo ela se alimentar mas poxa ela não se satisfaz eu dou a mão ela quer o braço e logo me vejo rastejando na rua atrás de abraço bebo água ouço música corro exercito durmo cedo parece que é tudo pra ela nada pra mim. Me apaixono amo construo parece que ela é tão carente não se cala quer roubar todos momentos da gente todos me dizem tem algo aí eu falo eu sei quem sabe seja eu mas poxa se ela for eu não quero mais ser quero trocar tudo será que foi por isso que comecei a fazer teatro não sei eu nem continuei não quero pensar que ela seja eu toda certamente ela já me consumiu tanto que a gente já se confunde. Me afasto de tudo porque né o convívio demanda coisas minhas e não tenho mais quase pra mim quem dirá pra outros tenho que aproveitar o pouco que ela me deixa tá faltando até que ela também é generosa eu sou meio pessimista de repente é preguiça mas poxa eu gostava de ficar atoa agora ficar parada é imposto necessário e não é agradável veja só algo tão bom o ócio nem isso ela me deixa todo mundo fala você parece tão calma até sou mas muitas vezes é ela o tempo silencioso que dedico a ela a falta de esforço que já virou desafio o calor de 42 graus no Rio mas por dentro tudo tão frio.