clichê de maio

Em algum momento dos meus dias desatento-automáticos aconteceu
é, subestimei o espaço que minha cabeça reservava à confusão
(O espaço é tão tamanho; a palavra não é essa
mas se perdeu me restando a conformidade)
[voltando: subestimei]
E por isso não passei o verão trabalhando em recolher
muito menos em estocar:
de forma alguma esperava essa súbita morte invernal
Subestimei também a sabedoria popular:
as outras formigas pouco ajudarão
é, é frio pra elas também e,
ainda que aquecidas, o medo de tocar o corpo gélido
que desencadearia seus próprios tremores
que remeteriam às suas friezas a(es)quecidas
[as afasta
Mas tenho que ser forte, não é
verdade?
Espero essa parte não subestimar.

e desde então ninguém

Na beira da mesa o copo dágua não é mais este
caso lhe falte o líquido
o amor do sofá na sala vira enfeite
quando escassas as perguntas ficam
tal como qualquer margarida sem abelha
e até a sobre-pele morta da palma infantil
furadinha curiosa com alfinete
que não doía
renovou o caguete
a falta de sentido ficou
nas coisas pequeninas
tipo saúde em pote de margarina
o novo discurso feio da antiga colega Marina
e de homenagem essa rima mais feia ainda
a ração do cachorro nunca foi mais a mesma depois que ele sumiu
desde então ninguém sabe no que ela se transformou
aqueles bilhetes grudados na parede e na geladeira
exibem histórias de personagens que existem só lá
a saudade de bethânia que fazia barulheira
acordando aos pés o vizinho
também existe só lá
e desde então ninguém sabe onde é