janela

tem momentos que eu quero coisas incomuns por exemplo seria melhor se eu parasse de viver tantas experiências pois seria ótimo evitar os instantes de eterno saudosismo que me acometem de repente como hoje no ônibus voltando um domingo normal com fome de almoço lendo um livro muito europeu pro meu gosto que se agradava bastante com o azul da capa sem letra tão bonito que me fazia interessante por segurá-lo e então de repente bateu meu olhar foi subindo devagarinho ignorando a paisagem dos postes centrais e que saudade daquela roda de samba no início da noite que maravilhosa ela mas a verdade é que no dia mesmo eu pensei que pena vim tão longe e hoje parece que a noite não rende eu me achei tão sóbria e tinha muitas filmadoras e microfones intimidadores eu pensei que saco não respeitam né eu olhava ao redor acho que o moço não vem hoje que pena daqui a uns dias eu vou embora e ele não vem hoje eu queria uma cerveja e antibióticos são péssimos mas eu sei que álcool também mas eu queria poder e nossa a moça de ontem apareceu tão linda ela e eu tão sóbria com a garganta latejando no sereno. parece assim que vem um recalque ou algo como só dá valor depois que perde eu não sei se é isso ou se eu digiro o momento um tempo depois de vivê-lo e percebo melhor que ele foi bom ou depois de uns meses o que resta é justo o que agradou eu não sei mas é mesmo bom guardar as recordações positivas mas é hipócrita pois no presente eu costumo ser bem chata por exemplo eu tenho certeza eu tenho certeza absoluta que da próxima vez que eu me enfiar em outra cidade eu vou estalar e meus olhos subirão estúpidos quando eu estiver tendo um encontro forçado e chato onde eu estaria enjoada das mesmas frases e eu falarei que saudade daquele domingo quando eu voltava pra casa meus olhos levantaram poeticamente e me transportaram pra um lugar que vivi como se meu corpo fosse capaz de viajar no tempo e reviver tudo que saudade eu lia um livro que o moço muito gentil me deu de presente que bonito ele não se fazem moços gentis hoje em dia na minha vida mais bons tempos. é isso acho que invejo a grama do vizinho sendo o vizinho eu mesma em outras situações que já passaram isso não faz o menor sentido e nem as lembranças que faço questão de serem as mais agradáveis são suficientes já que caio naquele anterior mencionado saudosismo imbecil e penso porra eu podia estar fazendo tanta coisa estou aqui nesse ônibus com fome porque não tomei café o bastante de novo vou perder a manhã de domingo e hoje nem o sol eu peguei fechou o tempo todo no segundo cochilo eu não devia ter dormido vou mandar uma mensagem pra ela dizendo que sinto saudades e quero voltar. eu sabia também que eu estaria puta da vida porque não me recordaria das frases que escrevi na cabeça dentro do ônibus e obviamente eu as acho bem melhores do que estas de agora eu sabia que eu ia esquecer tudo eu cheguei em casa e fiz por onde tinha visita depois sai depois voltei eu perdi o sentido que faria eu estou sim puta mas que seja também provavelmente eu vou gostar muito destas quando eu tiver uns trinta anos e estiver sofrendo por escrever coisas ruins.

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Já foi essa data

Ontem era terça e às onze e quinze da noite
Estavam cumpridas um terço das tarefas
Agora está quarta e o horário de feira passou
Quando eu esperava o trinta e nove na estrada

Sobra entao pra quinta um quarto do que hoje não deu
O dia mal começou e já sobrou
Na sexta, certamente vou lembrar do email que nao respondi naquele último ano bissexto

Ontem foi dia das avós e vou ligar umas treze horas após
Junho acabou e agora procuro quadrilha em agosto
São João conversou com Santo Antônio demonstrando justo desgosto

Mas vai vendo
Tá tudo atrapalhado porque pouco resta tempo
No verão, quase nada foi-se à praia
Talvez por isso esteja o inverno tão primaveril.

 

manhã de 27.7.16

Levou

Tôsendoesmagadapelo

p

e

so torturante de

uma superfície _______fina___translúcida__opaca__nebulosa_e p   as s a g     e i r        a

eu nunca na minha vida presenciei tamanho paradoxo do desbalanço o efêmero do eterno

abandono

 

d-il-ace-ra meu estômago com a mesma potência do engolir um martelo indigerível

indigesto o mundo nunca na minha besta juventude eu havia reparado tanto hoje senti meu fedor quando fulano deu pra fazer comigo a mesma merda que eu faço

não tem disfarce estava na cara

ele disse

não quero mais te ver ele disse

eu pensei calma entendo o que está fazendo e me lembro de seus outros odores mas passageira passou levou mais um na desimporância das dores.

 

3.10.16

Camisa de forca

Eu tenho certeza que eu sou o manicômio que nunca acaba eu sou o excesso a fala carregada de insanidade e me oferecem água achando que é sede ou melhor fingem que acham a verdade é que com a boca cheia é fácil calar e cidadão de bem é generoso no começo aquela coisa a esperança o abraço caloroso depois eu já sei problema de mulher não se resolve nessa instância mas porra né eu vi esse filme desde a infância já decorei a diferença entre o braço que acolhe e a camisa de força eu sei a gente pode achar de novo que é forte e quebrar os hospícios ate o último vergalhão mas construíram um bem aqui eu nunca achei a chave do meu imagine do seu mas por favor amigas nao me dêem ouvidos amanhã tem banho de sol

Vai

Foi dada a largada

Ao primeiro sinal pouco melódico
do sino da igreja de cabeceira:
estou desperta

Com o precipitado toque

Polifônico
já sinto meus músculos em pedra
Não é novidade qualquer desrespeito ao meu tempo corpóreo

Tudo é corrida
da qual não exatamente faço parte
senão aliviando outras corredeiras

A igreja sempre perto e desta vez no bolso
Verifico as horas
Às quatro da tarde já choveu o suficiente para que todos voltassemos a
ser bicho

Neste momento meu olho bateu no de uma mulher ofegante, que bateu no
de um rapaz perdido
Tive certa de que sentíamos o mesmo sobre as águas
Comunicação silenciosa
Percebiamos o calor de cada um em mãos antes mesmo de algum passo

E a igrejinha vibrou

Nao anunciava ainda a redenção das seis
A verdade é que pouco me lembro do que veio sendo dito

E eu já estava na cama para amanhã.

Dois mil quilômetros a dedo

Quando é que uma vivência em nós assenta
e se revira em marca
de quem trás memória atenta?
De dez dedos braçais só restou em um
três únicos sujinhos azuis
do esmalte usado pra registrar a lembrança
que agora o mindinho induz
Mas apesar de pequena a mancha,
tem essa cor perfeita e viva
como se eu ainda estivesse lá
ou o lá fosse encurtado aqui
Com meu menor dedo puxando mil e quinhentos
quilômetros de estrada
me ensinando o quanto ele é importante-
ao oposto que todo mundo pensava
Talvez seja justo isso:
sempre a mão de alguém movendo o chão que passa
Como uma esteira sob as rodas do caminhão
Do jeito que Francisco me falou
na verdade não é a gente que sai do lugar
E assim Chico seguiu certo
tendo sempre alguém que puxa
————————————————-
Eu roo as unhas
mas não a do mindinho
porque ela me assegura
segurando a calma
daquele pedaço de caminho
————————————————-
Por exemplo agora vem chegando pela janela encortinada
a humidez que chuviscava
Aracaju
durante nossa breve estada
A água era tímida e felizmente,
as mulheres que amavam mulheres, não tanto
E aqui ela vem entrando com ar de quem escapou de casa
deixando alguém esperando
————————————————-
A roze vem anunciando a revolta da Asa Branca
que já havia voltado quando eu pisava Areal
E mamãe entrou pela porta junto com a saudade de colo
de quando eu olhava o milharal
Que, não fosse o meu nascer em Santo Antônio
e umas duas paneladas,
Nem me era assim tão familiar
Além também da promessa com Jéssica
por nunca ter comido milho
Combinado esse que já parece a mais lonjura das milhas
que Cachoeira na Bahia
Onde revivi a nostalgia do bem
que a jovem paixão fazia
————————————————-
Minha falta de cuidado
com as plantas que botei aqui
faz elas conversarem com os tomates que semeei lá
pensando na corrente do rio Paraguaçu
e em me espalhar nas frestas das lajotinhas ladeirantes
E me faz notar que os tomates desse meu quintal
que achava desamparados
colorem meu convívio com flores amarelo
e frutos que darei pra além do carnaval
————————————————-
Tem os presentes com a hora certa
celebrantes do momento
por exemplo
os que fiz e aqui permaneceram
com a certeza de que não serão mais dados
fincando o sentido em minutos do passado
————————————————-
A rua que nasci
sopra sempre os meus pés
quando deito desamparada
no sofá novo da sala
————————————————-
Eu volto pra poder voltar praí

18.9.16
em homenagens aos íntimos e aos que caminharam junto nas margens

a gente diferença

Dizeu-me aquela voz
nem de sim nem de não
Em mais de três dias adormecidos
embaixo e bom tom
Que não podia mais ficar

Mastigados os ruídos
Preparei meu colchão
pruma semana de domingos

Foi quando o piso da varanda
me assoviou sobre teus pés:
nem de fica nem de vão

E a maçaneta da portinha estreita
assoprou certeira, entendedora
da nossa mão

Qu’era por isso nosso incontro
Eu quando piso, finco
Quando parto,
nenhuma dúvida em minh’assola.