Dois mil quilômetros a dedo

Quando é que uma vivência em nós assenta
e se revira em marca
de quem trás memória atenta?
De dez dedos braçais só restou em um
três únicos sujinhos azuis
do esmalte usado pra registrar a lembrança
que agora o mindinho induz
Mas apesar de pequena a mancha,
tem essa cor perfeita e viva
como se eu ainda estivesse lá
ou o lá fosse encurtado aqui
Com meu menor dedo puxando mil e quinhentos
quilômetros de estrada
me ensinando o quanto ele é importante-
ao oposto que todo mundo pensava
Talvez seja justo isso:
sempre a mão de alguém movendo o chão que passa
Como uma esteira sob as rodas do caminhão
Do jeito que Francisco me falou
na verdade não é a gente que sai do lugar
E assim Chico seguiu certo
tendo sempre alguém que puxa
————————————————-
Eu roo as unhas
mas não a do mindinho
porque ela me assegura
segurando a calma
daquele pedaço de caminho
————————————————-
Por exemplo agora vem chegando pela janela encortinada
a humidez que chuviscava
Aracaju
durante nossa breve estada
A água era tímida e felizmente,
as mulheres que amavam mulheres, não tanto
E aqui ela vem entrando com ar de quem escapou de casa
deixando alguém esperando
————————————————-
A roze vem anunciando a revolta da Asa Branca
que já havia voltado quando eu pisava Areal
E mamãe entrou pela porta junto com a saudade de colo
de quando eu olhava o milharal
Que, não fosse o meu nascer em Santo Antônio
e umas duas paneladas,
Nem me era assim tão familiar
Além também da promessa com Jéssica
por nunca ter comido milho
Combinado esse que já parece a mais lonjura das milhas
que Cachoeira na Bahia
Onde revivi a nostalgia do bem
que a jovem paixão fazia
————————————————-
Minha falta de cuidado
com as plantas que botei aqui
faz elas conversarem com os tomates que semeei lá
pensando na corrente do rio Paraguaçu
e em me espalhar nas frestas das lajotinhas ladeirantes
E me faz notar que os tomates desse meu quintal
que achava desamparados
colorem meu convívio com flores amarelo
e frutos que darei pra além do carnaval
————————————————-
Tem os presentes com a hora certa
celebrantes do momento
por exemplo
os que fiz e aqui permaneceram
com a certeza de que não serão mais dados
fincando o sentido em minutos do passado
————————————————-
A rua que nasci
sopra sempre os meus pés
quando deito desamparada
no sofá novo da sala
————————————————-
Eu volto pra poder voltar praí

18.9.16
em homenagens aos íntimos e aos que caminharam junto nas margens

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3 comentários sobre “Dois mil quilômetros a dedo

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