salgo

o primeiro orgasmo
de dois mil e quinze
eu me dei e dei
de volta à água
que me expandiu
em impossíveis minutos
eu boiei enquanto
minha pele salgava
quando o sol tocou
o mar eu ardi junto
nesse momento era
queimada todo o
mundo e não houve
um olho sequer que
foi capaz de mover
minha mão
às seis da tarde
meu gozo era peixe
correndo na maré
pela primeira vez
molhou sem precisar
ser secado
Anúncios

Nenhuma amena

Um pano de chão
com o peso do molhado
assim eu me sentiria
Hoje acordei pensando solitária
quem mais me torturou
Eles me apertavam e eu me retorcia
Eles na torcida de que eu nao suportasse
um só mais golpe repuxado
Quando pensavam ao máximo me terem definhado
Quando pensavam ao máximo meterem esticado
eu resistia
Deslizava macia,
flanava no vento e pousava no chão
flanela pronta pra me reabsorver
as lágrimas em algodão
Abraço-os por me torcerem de uma vez só
úmida do passado
apesar de despesada
Continuo limpando a nós outras
a sujeira que deles desaba.
em memória e presença de Lucía Perez

Livramento

Vi de perto hoje ser tempo de peixe
Como de praxe
pisei areia na renda do dia
que o mar junto se arrendava

Um menino brincante onde o bigode o anzol poria
não arredou meio pé
Sob meus olhos laranjava a infância encorajada

O horizonte saturava água alta
cor límpido chumbo
Entrava perfeito aquele livro azulzinho
na paleta colorida amarelada até rosar

Apontando meu objeto às direções que o olho via
Até notei que servia a canga também
Todavia
dela já me enjoara
e a saia cor caneta a cintura me apertava

Continuei livrar a cena
Livrei dez barquinhos de sua possível simetria
Livrei também a linha da vara na beira
Livrei dos pescadores a caça
quando não pescaram o que eu fazia

 

10.16

parada ensurdecedor

eu queria encontrar voce
e voce também
assistir amanhã ao show do mateus aleluia
bater na porta da anna e relembrar o passeio
na lagoa da pampulha
dizer vamos e ir
atravessar a ponte rio niterói
num domingo azul e calmo
ou na sexta engarrafada
mas rir no seu rosto e brincar é nóis
dentro do onibus
e não ouvir a rua debruçando no meu ombro
sussurrando mais alto que o sino da igreja de santa rosa
vai pra casa
e quanto mais eu ignoraria a rua mais ela jogaria seu peso
no dia seguinte eu ia procurar alguém pra me fazer massagem
mas fracassaria porque precisaria marcar horário combinar
compromisso e talvez estender
e a rua é infinita
eu não sei se as massagens também são

Já tarde

Eu quero ir embora da sua casa
Mas antes eu quero
Arreganhar minha buceta
te rasgar com os meus pêlos
observar o horror na sua cara
Te ouvir dizer que nao caibo
no porta-retrato da sua sala.

Antes de ir embora
Quero te esfregar que não estou morta –
ainda que você me engane –
eu tenho sangue!

Enquanto você me expulsa,
antes de berrar “sua puta!”
quero te mostrar que meu ventre
ainda pulsa.

Te questionar as tardes de domingo
Quando sobre aqueles corpos
você goza consumindo.

(Te perguntar o que você fez com ela dormindo.)

Quero então que me destrate
Que me culpe pelo seu desastre
Arremesse-me sua injúria
Enquanto alimento minha fúria.

Logo não mais motivo existirá
para arrastar tal demora
Passado tudo isso
Mais uma vez, eu posso ir embora.

29.10.15