Encomenda

Por vezes empenho
fantasia
papel assumido
passeando esquinas em
corpo ambíguo
enchendo com açúcar
fritura ou amargo
fazendo de tudo
caminho amado

Eu me abro armário
quando não o próprio
chão
me enfio o vestido mais
disso
e saio
e volto
outra vez
acertando vestido florido
não disfarça meu espinho

aprendendo a usar banheiros

Todas as canetas andam vazando. eu ando também estourando e escrevendo muito sobre morte; isso não é trágico, vê. Aquilo que me matou e andou me reassassinando durante os últimos está morrendo agora. Apunhalar o que estava-me grudado não é a coisa que já fiz mais fácil. Tomo gosto por matar.
Não fui nunca, pelo menos acho, uma pessoa vingativa e penso que a alva moral pregou-me tal feito para que vingasse mais a submissão. Mas pois; vazo também e a cor é vermelha; não sai só do útero atolado de maus-tratos mas do corpo todo, à dentro, ao ar; tenho estado arrepiando a cada nova punhalada a cor é vermelha.
Estou me descontendo por passar a juventude recente sem meu tempo de despejo. A obrigação de sorrir simpática também me matava. Não estou bem, isso é óbvio e ótimo. Me sinto muito melhor do que quando dizia estar feliz. Sofrer é a maior delícia que pude até hoje me oferecer; os orgasmos nunca me foram tão úteis.
Como Pagu pensei sempre os acontecimentos de minha vida trágicos porém contava como quem diz que usou um banheiro sujo na estrada mas logo tomou banho em casa. E eu poupava todos os ouvidos, tão cuidadosa, nem pra dentro própria desaguava, muito menos banho, nunca teve banho.
E agora? Estou carregando pelo país pesos que não deveriam ser só meus e não digo de culpa. Estou me jogando pela janela, mãe. E não digo de ver o sol. Estou me tacando fora; chega; podem me saquear à vontade desde que seja eu mesma quem mate.

“Dor de punhais que se introduzem para conhecer o avesso.”

rujada

Preciso ouvir palavras dizendo outros ritmos bagunçar-
me a cabeça mover a poeira assentada na cadeira
de
balanço meu ouvido se encharca
muito ruído muito despercebido já
automática montação de códigos
Preciso desentender símbolos
chocalhe

E dessa vez não dessa vez ao menos
essa vez não quero sussurro
mas estraçalho
bem menos romance ao meio dia de pé com lama acordado
dessa vez não dessa porque não quero barulhinho nem friozinho já me sinto dura pronta rugido dessa vez
o grito

Senhores ágeis

Por todas estas arestas
isolamentos impossíveis
barulho estranho de festa que
não cessa mesmo
estando todos mortificados
ambiente mortificado
inclusive eu

Ou à parte perdi as
paciências e agora
julgo
Ou só
interpreto tudo
a minha semelhança e
umbigo

Devem ter aqui quase mil
quatro deles encorajaram a encarar-me
cadáver
quase todos me facilitando a viagem
ao inferno.

Não é amor líquido é amor masculínico

Amor masculínico é um amor até você não ser homem*, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-a enquanto ela te trouxer satisfação havendo o que dela sugar em benefício próprio, e a substitua ou capture outras que lhe permitam crescer ainda mais, repetindo o mesmo rito. É o amor como um espectro de eliminação imediata da potência criativa feminina*, que não as impulsiona nem isso deseja, e assim, paira acima delas. Na sua forma masculínica, o amor tenta conseguir qualidade destruindo sua fonte – mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo.

Releitura do Bauman caguei amor líquido caguei também a crítica