queridas poetas lésbicas

estivemos unidas ontem em um evento magnífico de poesia, muitas muitas mulheres horas poucas após uma aprovação estilhaçante. alí, onde reivindicavam a força resistora dos úteros como punhos erguidos, foi novamente contabilizada a palava “retrocesso” mas dessa vez tive preguiça de contar e não contei.
repita comigo tempos estranhos
repita comigo tempos sombrios

era um evento temático. mulheres poetas lésbicas.
repita comigo que os homens não valorizam nossa escrita
repita comigo que sofremos assédio

todas as perguntas permitidas às queridas eram sobre como
homens não valorizam nossa escrita, é muito difícil sair de casa?
repita comigo em silêncio que você não pode falar de poesia
repita comigo em silêncio que eu esqueci o que você escreve

quem gosta ali? lembro um outro esquecimento:
uma delas esqueceu de levar seu próprio livro.
repita comigo uma platéia inteira rindo

uma livraria lotada muitos úteros vamos ler o quê?
esqueci também. raras escrituras vocalizadas pelos desejos do ventre

repita comigo eu luto pelo meu direito de sentir desejo
repita comigo uma moça pegou o microfone apresentou seu coletivo de luta
repita comigo ela já sabe e disse num mundo que odeia mulheres
amar mulheres é um ato revolucionário
repita comigo uma platéia inteira assobios

uma delas esqueceu de seus lampejos de vida-livro e pediu desculpa
por não viver em ativismo
(mas não sem antes pedir que não filmassem esse terror de confissão
e prometeu, depois, que o faria sempre que pudesse)

a imagem que se cola ao sexo lésbico é tesoura.
uma tesoura tem muitas funções
e a que menos tem é a de resistir tornando estruturas preservadas
repita comigo mulher artista resista
repita comigo jargões feministas

quando a poesia desliza e não resiste nenhuma mulher
pode dizer poesia
uma livraria lotada (e atraindo nicho)
horas após estilhaçarem todos os úteros resistentes e
quebradiços
quando a gente se calou e esqueceu que a poesia também
quebra vidraças

 

Este texto foi originalmente publicado aqui (Facebook)

Leia também: manual iniciante: para tocar um corpo-buceta

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estava feliz já fui bela agora sou eu

estava feliz chovia.
já fui bela agora sou eu:
porque estava feliz chovia

há mais o que dizer sobre ter
deixado esquecido
de ser bela
saudade é uma.
e dizendo, sou um espanto
deslumbre
uma linda farsa eu sei

o mundo deve irritar a existência
de gênios
os que são todos loucos e facilita
como deixo de ser bela sendo eu
facilito a primeira ideia

alguém me bate a porta na cara
e um bilhete prescreve
um espanto descrito um deslumbre
a minha linda farsa
o mundo inteiro é belo sendo

e não louco nem gênio
deve sê-lo
nem um nem outro
quando se deve irritar
a existência-prima

já fui eu
agora porque chove estou feliz
e tudo em sê-lo lugar

4 poemas de Estefanía Angueyra, por Júlia Vita

Estefanía Angueyra traduzida por mim:

Liberoamérica

Estudo sobre quatro ameixas

Dezessete jovens
sentam-se ao redor de uma mesa
onde repousam quatro ameixas

Todos escrevem sobre elas
sem vê-las

Para alguns poetas
os objetos servem apenas
por seu poder evocador:

a quem importa
essas manchinhas violetas aí,
tão imóveis e opacas?

Ah, mas se fossem três
ao menos poderíamos falar
do número de Deus

Companheiros, vejam!
Acabo de morder um dos frutos!
Agora poderão somar ao seu poema
uma metáfora sobre a carne.

Estudio sobre cuatro ciruelas

Diecisiete jóvenes
se sientan alrededor de una mesa
en la que reposan cuatro ciruelas

Todos escriben acerca de ellas
sin mirarlas

Para algunos poetas
los objetos sirven tan sólo
por su poder evocador:

¿a quién le importan
esas manchitas violetas de ahí,
tan inmóviles y opacas?

Ay, pero si fueran tres
al menos podríamos hablar
del número de Dios

Compañeros, ¡miren!
¡Acabo de morder uno de los frutos!
Ahora podrán…

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por que tememos estes dentes na lisura

hoje de café da manhã quando chovia
chovia muito e não recebi ninguém
abri a porta à minha vista
e comi um cachorro passante

agora que estou próxima da hora
do almoço, quando gostei gostei
muito e queria comer outros

mas parou a chuva
chegou uma pessoa
que não me receberia bem
de saber que virei comedora de cães
com manteiga no café da manhã

sim, barriga, eu me torno muito triste
um pouco de medo, tenho
e selo a boca pra não sair hálito do flagra
salto sobre meus pés para que a chuva caia
de novo lavando o flagra

estive só de novo tendo saltado demais
não quero dizer ainda a tristeza
de minha língua
abro a boca e estremeço o cheiro dos cães

amanhã a chuva não veio
e trouxe a pessoa
se preocupando porque eu me torno
muito triste e com um pouco de medo, tenho
falei de como me sentia com um cachorro
sem dizer que comia cachorro

a pessoa teve que alma era só alma
e não quis me tocar
contou linhas ritualísticas para profusões
corporais
que não eram curas mas por eu estar presa,
tenho estado muito presa
precisava de ver

quis dizer a pessoa que eu conseguiria
abrir-me a isso e à pessoa
e a todas as pessoas
ao invés de ficar sem fala executando gestos
de quem ouve cachorros nos intestinos do mundo
chorando muito pelos cães de fato
não deverem estar aí

uma criança sem blusa os círculos

depois de todas as avós
morrerem
os avôs olham para o mar
e dizem
nossa, o mar ainda está violenta
e riem ajeitando o erro
antes doutro som de sim,
violenta!

uma criança sem blusa
corre traçando círculos
ao som de um pai que
diz
que te amo com raiva
e mergulha na ira
e uma criança ri muito
ajeitando o erro
construindo círculos

um barco pesqueiro com
quatro
cabeças passa por trás
o amor com raiva superando
a água a cabeça vira

em cima assistindo
o mar violenta com neblina
por trás da raiva do amor,
do avô, do círculo e do círculo
e do círculo
treze caravelas
uma imagem de época