Suspenso porque suspenso

Enviei uma carta para ser alegre
Era muito nova
e não me lembro de lembrá-la.
Envelheci os anos do escrito
Já tinha história de gente grávida,
eu fiz
Para ser alegre
(mesmo tanto perdendo pedaço)
É ainda como nos deve, desde os pesos soltos
deixados sobre os primeiros papéis,
a gravidez – e sua memória mantendo a gravidade pendida.

 

 

 

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fome, as coisas

quando penso em fome
um ronco destrona as leis
gritos de olhos grandes, um porco
revela a casa – há pão e amor migalha

sozinha quando penso a fome
ao pedirem amor gigante com olhos
ocultos de malhas,

um ronco destrona, valeis de fibras
me deito na frente de duas pupilas
faço coisas e ainda respiro

tendo aprendido a abrir, abro
e por ter aprendido a nascer,
nasço enquanto finjo que outro crio

a primeira vista retorna
de nós crianças
recém latinas na cama – fazendo coisas
como nossas antigas miradas

caçando mães, pais, pitangas
caçando a vista perdida na fechada fresta
das cercas

que é para deitar aqui, que deito
com rosto descoberto das vezes
ainda frescas
e, frente a frente, aberturas
como quem produz
o princípio dos roncos fecundos

amor, pão, migalhas – vejo
fazer coisas com olhos somados de unos.