net FLIPx 2018 – literatura on-demand

A “resistência” que nomeou o que foi visto na FLIP 2018 foi, desde o início, o seu produto anunciado. Todos o esperavam e realmente foi oferecido. A Companhia das Letras mantendo-se a grande do BR, fazendo o evento como se estivesse descobrindo Hilda, a demanda da “mulher esquecida”.

Estruturas enormes da autora novíssima e maravilhosa, os livros relançados pela boa editora e um absoluto nada em relação ao Massao Ohno. Obviamente, nada sobre Hilda esculhambando a situação artística/editorial do país, com a face enrugada e apaixonadamente enraivada, ou qualquer aproveitamento disso pra analisar o contexto presente, pra além dos bate-papos sobre editoras independentes e bem-vindas mudando o cenário da Festa. Mas quantos debates temáticos à la Leia Mulheres tiveram, e quantos livros a Editora vendeu!

O que é essa inclusão pretendida como resistência, não só no que diz respeito ao evento (mas também)? A prática é enfiar 50 autores vivos em antologias que pipocam a cada mês, fazer milhares de mesas de debate atendendo às pautas e demandas e, desse modo, conseguir encaixá-las em qualquer lugar como grande ato de ocupação dos espaços; manter todo mundo trabalhando de graça e depois lamuriar sobre como o Brasil (e o misterioso “grande mercado”) trata seus artistas como fazedores de hobbie; editoras pequenas realizando financiamento coletivo pra bancar a fortuna de sua participação — seguindo à risca o tipo de conteúdo da Grande Programação — na Festa.

Festa essa que é financiada com dinheiro de banco “empresa Pública Federal”, com atuação criticada até pelo MPF. Mas não pelos “independentes”, que agora movimentam (com muito custo dos autores) a grande Party, fazendo parte oficialmente — mas ainda nem tanto — e desejando servilmente seu lugar na casa/cia do Sol.

A outra astúcia da inclusão movimenta parte da rua pelo mesmo desejo, onde ouvimos entediados um infindável embaralhamento das mesmas palavras com idêntico intuito, e onde o prazer se localiza naquilo que embaralhou de forma mais renovada — ainda que mantendo o sentido fixo. Comunicação ávida pela comunicação, palavras-de-ordem em falas que apenas pelo contexto se pretendem poéticas mas mantém-se retilíneas.

Como se a proposta de abrir espaço para todos, com diversidade de vozes, significasse abrir a possibilidade dos ouvintes completarem automaticamente as frases que escutam, pela facilidade: uma comunicação fácil e prevista cujo ensino foi democratizado e tornado acessível porque todos os ouvintes agora sabem o conteúdo de cór — e isso se buscaria como contraponto àquela poesia difícil que chamam distante de seu povo (a que dizem suscitar por si mesma eventos elitistas).

A que, pelo simples raciocínio, deveria ser a manifestação presente na programação ultra oficial, ao menos assim haveria ao que resistir, produzindo algo crítico a isso. Mas sabidamente não era o caso. O erro (muitas vezes proposital) da análise sobre a elitização consiste em deduzir que por si só o conteúdo — e algumas presenças — seriam seus motivadores, enquanto não é levado em consideração a produção cultural desses eventos. E como já mencionado, majoritariamente o conteúdo da programação literária de todas as faces da Festa foi sob demanda midiática-empreendedora, portanto quase nada diferindo entre si.

Porém, é aparentemente preferível não perder a justificativa de politização independente e agir forjando o motivo — afim de continuar a situação dessa lógica visando o compadrio industrio-cultural. Forjada ou não, a operação segue questionável: cria-se uniformidade tentando enfiar na arte o que é linguagem-mídia, já que esta seria a única linguagem a atingir esse povo (a quem chamam manipulados, desprovidos de leituras), de modo que ao aderir à mídia como alternativa estaria-se manipulando a situação de forma militante e pedagógica. Temos então a impressão de estar ouvindo hashtags — e estamos –, produzindo e participando dos eventos como organizam os algorítmos. E as CIAS. Nada fura, nada foge, e assim se colabora com o patrão. NETWORD, NETWORK.
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da poesia esboco 2017

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