Rose

eu me sinto ótima. é contraditório algo de péssimo querer sair; me sinto ótima e desejo pranto; desejo que me caia raio, há pouco mesmo observava a cidade mais próxima esquivar-se de relâmpago e eu que os queria – nada. não é trovão da morte é várias coisas. olha, o livro… eu estou tão excitada com gana de comê-lo já inteiro; mas eu desisto não quero emporcalhá-lo, faz calor demais, minhas mãos se molham do tesão climáxtico, já não sei onde as enfio. hoje andava muito devagar meio contra meu ritmo, reparava as novas propostas em vitrine; um calçado delicado colorido suave, lembrei-me de quando usava parecido o quanto meu movimento era tolido. o primeiro beijo de mulher dela foi meu, passo sempre aqui pra lembrarmos que esqueceu; foi-se um mundo entre nós acumulando o quão imundo; Rose, acorde!, quando mais eu ando mais vejo graça; veja, dê um sorriso pra outra pessoa, eu quase não estou mais aqui; ninguém além vai notar que nos transportamos; ninguém vê sujeira, teu olho cintila mesmo estranho; não ouço nunca o som de nosso oi; está tudo igual e você ainda trabalha com sapatos limpos.

Majestosa

Amada, acalma-te
Não poderás fazer análise.

política

por seres muito você,
não vêes?
não fala tua boca
sobre escolha
tampouco o falso
arbítrio
não fala tua palavra
da vontade
então cala-te

antológico que lindo ficas
quadril teu em cama minha
a ti, filó
sou fio que tece
teu remendo espetáculo

Uma coisa não aprendo
que tu fazes maestria
não impede a elegia
tua mão
virar café

Túmulo

Imagino estiver-me morta estiver ainda em moda descobrir palavra póstuma; estremeço o encaixote dos meus as; vezes que disse flor cismariam desabrochar; Quem me testemunhara em corpo inventaria motivo do meu vestir monocromático: diagnóstico de loucura monótonica; e ninguém mencionaria minha desabilidade de expressar estilo muito menos não ser isso o que me importava; nem também à Rosinha ser namorada; após doze anos quase falecida enfim ida; Eu me reviraria de tanto túmulo:

Imagino tivéssemos mortas aquele dia no carpete: noticiariam suicídio pelos amados homens perdidos; você se lembra bem que conversávamos enérgicas depois de feito e comido o macarrão quando demos conta do gás vazado; de cúmplices mágicas seríamos desfeitas apaixonadas trágicas.

Imagino tivesse ontem o cara me matado com aquela risada diminuta olhando a marca de minha sentada molhada; pensava o quê? pingou de tanto medo ou de não saber se controlar; ou vazou nojenta. a pior das hipóteses e não duvidada: teria eu morrido de clandestina em método criminoso. O dito não matou-me graças à chuva bem tomada.

Imagino tivesse morrido hoje mesmo; após encontrariam hemorragias na colcha do sofá dizeriam que foi o quê dessa vez? maluquice de minha parte ou de novo os mesmos homens de antes; que eu haveria reclamado qualquer coisa ideológica dando murro em ponta de faca daquele meu jeito insistente e me arrependido esfaqueando o mesmo murro; eu morragia mesmo mas seria outra mentira que não daria conta de que nesta lua cheia eu sangrei só pernas e panos.

salgo

o primeiro orgasmo
de dois mil e quinze
eu me dei e dei
de volta à água
que me expandiu
em impossíveis minutos
eu boiei enquanto
minha pele salgava
quando o sol tocou
o mar eu ardi junto
nesse momento era
queimada todo o
mundo e não houve
um olho sequer que
foi capaz de mover
minha mão
às seis da tarde
meu gozo era peixe
correndo na maré
pela primeira vez
molhou sem precisar
ser secado