uma matilha de planta

chega da desconstrução.
a comunicação é desértica dum chão
sem cactos
chega dos factos pactos memórias práticas da irredutível opinião sádica
a política da chaga exige vasilhames abrigando migalhas
não há migalhas em chão sem cactos
a política da chaga nos exige uma palavra de basta e que
tomemos sopa de planta em nossas vasilhas vazias
uma matilha de planta em nossas vasilhas vazias

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ciclo 23

digo ao meu amor que isso é coisa de outro mundo
não sou um urso que hiberna mas a vontade é dessas
que sim. já estourei tantas bombas de chocolate que precisei
testar outras espécies

quando eu testo outras espécies arrisco tudo:
dente, altura, caverna do muco

(a minha elástica
assume o risco)

fotografias de casamento

Estou esgotada do prediletismo pela poética do relato
tristes coisas vistas, mais coisas vistas que capacidade de ver.
o cotidiano fumado no rito banal, temporal, clássico do café
açucarado (e dos másculos que escondem a pequena colher)

poesia sem rito assassina semanas. a feitura com nome
de mito mata – tralhas, tralhas, jogos de dados cheios de ácaros
essa cisma documentada mofando o lugar comum
da palavra barata

Muitas vezes estive presa nos dinheiros das dívidas
e das narrativas
(bom trabalho
boa mídia)
até quando o mistério do silêncio
pediu minha mão oferecendo-me valiosidades

assim narrarei este pedaço: como o impossível casório saudável
(e também aceitado de Clarice), como aliar-se em nome de Deusas
sendo suas palavras o luxo da não-fala e sua escrita do ócio
a grande medida para prever um divórcio

octavio, paz em carminha

puxou-me das terras parmênides
sendo o que sou e o que não-sou qualquer algo
que não eu

bateu em neve a terra clara
de sua receita núvem fez ideia
clarificada

séculos depois de plantadas musas e ursas
profanas,

nasce
com imagens letrárias além
dos exemplos –
imágens indizíveis da pensagem que desengana,

Carminha
mystica
poesia salva

Têmis II

Sêmen pelos nossos pecados, Ó Pai! Sêmen
na cara de Jesus
O que temes tu que escorra em tua casa?
Vá, Sêmen, à boca do velho ator em morte,
sussurra a lástima da vida em sua partida.

Corra congelado, Sêmen, como agrado
às crianças do norte, Ó Pai! Fertilizai vossas
infâncias. Sêmen pelos nossos pecados, Ai!

Que seja cheia tua taça, Grande juíz guardador
das carnes, que de nossos casos possamos dar-te
cláusulas e possas tu mantê-la farta.
Que assim faças de nós, Ó Pai! Sêmen em tua mesa
e tua casa protegida.

manual de Stein

Um manual é um manual
e não me serve.
Pode servir às pulseiras Stern
e seus escândalos
e a pouco mais que isso

Não serviria para ver o que é
uma flor,
logo não serviria a uma Stein – é uma
Gertrude é uma Gertrude
e pouco mais que isso

A poética passeia onde não ocidenta
o tempo. Caso houvesse esse acidente
seria de todas as palavras
jornal

Uma lista perece com os
eletrodomésticos pifados.
Nisso há o cheiro
da queima
e pouco mais

Os jornais que compõe datas
não dizem de cheiros nem mesmo
do chumbo. Tentam conter os
filmes, os assassinatos, as peças
e as prosas – uma prosa não é uma prosa
é uma prosa

e um suicídio um pouco
menos que isso

para isto as anotações

meu amigo duro disse-me entre-trânsitos
meu amigo mudou-se à sp. morro de saudades
pela raridade capturei feito estrofes.
eu poderia dizer é para isto que serve e
para isto que faço
enquanto rememoro meu amigo duro
com suas próprias palavras enfeitadas
de minhas.
ele brilharia oferecendo-me beijos e
críticas todavia este modo não é de fato o que
há. não é de meu amigo duro a saudade
deste poema

não morre a parte retida

temo demais pelo meu amor que não se deixa mulher
diz-me que ofício é ofício e vida; e sexo vida mas
não abre pálpebras e por isso,
sexo mais sexo como dia menos dia.
temo bastante contudo menos que umas
no seguinte: dizem-me que filosofia,
a crítica das artes, os quartos arquitetados
tão bem quanto eternos são dos grandes
e dos grandes, gênios. e por isso,
gênio mais gênio como a vida nossa subtraída.
esta parte pouco temo; que não se deixa perder
diz-me que fica, sem nome; entretanto
filosofia mulher.

a traduzida

Tenho sonhos de leoa com face gueixa
neles, eu comum também a era
Precisava alimentar-se de gente sendo esta
a normalidade do rito,
havia quem se desse oferecido
O flúido fazia-se ao fechar das portas conjunto
ao espanto
Os que me fariam zoológica,
espanto.
As portas abrem-se,
leoa de gueixa sonho meu
chupa as unhas e as paredes brilhos
Como minha roupa de pele
tudo limpo

Curvo ateu

vinte e cinco humanos em listradas camisas vestes
listras. em pé, aborrachado díspar
ao par de alcóolicos hábitos
cintilam cílios à visão turva o milho
não milho de ascender o fogo à força
luz de suas fronteiras margens

vinte e cinco vias fáceis
evocando um não-Deus
pela miséria e derrota de classes prestam corpos
em vestes que não as de manter os seus
em dia com o ateu dia progressista em rede
mais a sede
do mistério em seca

turva e fresca a visão de milho é
fosca. composto sem crítica ao
escopo do brilho,
mantem-se os concursos do rio
e cintilam

arde o buraco entre listras da
fogueira científica
índio.

Júlia Vita

Manuscritos meus no Poema do Poeta.

o poema do poeta

juliavitapb11.pngJúlia Vita (1995-) é poeta e artista nascida em Niterói, a mesma cidade onde atualmente reside. Possui poesias publicadas pela revista digital mexicana La Crítica e um de seus textos não poéticos republicado pela revista Casa da Mãe Joanna. Seus textos sobre política afetiva e suas poesias podem ser lidos no blog Versoando e no Facebook. Há uma poesia impressa em coletânea através de concurso nacional e está iniciando processo de publicação individual.

ultima(1)quando nao ha mais a dizer.jpgf.jpgarbusta(1).jpgdesterra(1).jpgera breu e barco vulto(1)quaresmaestao na moda.jpgtenho adaptacoes.jpgpariparoba.jpg

cachoeira(1)

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Emily

Emily em seu caderno
muitas flores
você coleciona-nos deste jeito
e este hábito dura-nos
ao que viemos

Emily na capa de seu livro
uma amarela
à cor de Deus
com quem falamos deste jeito
nossas flores mortas,
catarses, mistérios e
desterros

Li tua solidão quando
preciso povoar-me
à cor de Deus
Em mim é como triângulo
prateado esta cor