Não é amor líquido é amor masculínico

Amor masculínico é um amor até você não ser homem*, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-a enquanto ela te trouxer satisfação havendo o que dela sugar em benefício próprio, e a substitua ou capture outras que lhe permitam crescer ainda mais, repetindo o mesmo rito. É o amor como um espectro de eliminação imediata da potência criativa feminina*, que não as impulsiona nem isso deseja, e assim, paira acima delas. Na sua forma masculínica, o amor tenta conseguir qualidade destruindo sua fonte – mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo.

Releitura do Bauman caguei amor líquido caguei também a crítica

a frente daqui

O céu foi desabado!
Eu ouvi e não corri
Mastiguei cinco caroços de feijão
e dois de alho

Também não se mexeu o cílio seco do espantalho

Por ali tinha uma pomba
Mastigou dois de milho
E um de pão
Voou embora bem tardar o penúltimo trovão

Mas o céu se furou
Desceram aos cumes todos os homens
da moral dos bons costumes

A vizinha do lado cutucou a da frente
E agora o que será dessa gente
Ela nem respondeu

Desceu o anjo interino reclamando passagem
e cum resmungo qualquer falou o povo anda impedindo

Veio logo a mais harpada anunciação
Prometeu outra terra pra gente desocupada
trinta por cento do lucro refazeria a estrada
e com esforço trabalhado sanaria aflição
de uma vida desgraçada

Nenhum bicho deu um passo até a luz
Nenhum chapéu se moveu ao cumprimento
Todo punho se manteve em próprio piso
Voltou a ser pagão o cultivado paraíso

As roseiras das avós espinharam obstante estação:
daqui pra frente será tudo ocupação.

Túmulo

Imagino estiver-me morta estiver ainda em moda descobrir palavra póstuma; estremeço o encaixote dos meus as; vezes que disse flor cismariam desabrochar; Quem me testemunhara em corpo inventaria motivo do meu vestir monocromático: diagnóstico de loucura monótonica; e ninguém mencionaria minha desabilidade de expressar estilo muito menos não ser isso o que me importava; nem também à Rosinha ser namorada; após doze anos quase falecida enfim ida; Eu me reviraria de tanto túmulo:

Imagino tivéssemos mortas aquele dia no carpete: noticiariam suicídio pelos amados homens perdidos; você se lembra bem que conversávamos enérgicas depois de feito e comido o macarrão quando demos conta do gás vazado; de cúmplices mágicas seríamos desfeitas apaixonadas trágicas.

Imagino tivesse ontem o cara me matado com aquela risada diminuta olhando a marca de minha sentada molhada; pensava o quê? pingou de tanto medo ou de não saber se controlar; ou vazou nojenta. a pior das hipóteses e não duvidada: teria eu morrido de clandestina em método criminoso. O dito não matou-me graças à chuva bem tomada.

Imagino tivesse morrido hoje mesmo; após encontrariam hemorragias na colcha do sofá dizeriam que foi o quê dessa vez? maluquice de minha parte ou de novo os mesmos homens de antes; que eu haveria reclamado qualquer coisa ideológica dando murro em ponta de faca daquele meu jeito insistente e me arrependido esfaqueando o mesmo murro; eu morragia mesmo mas seria outra mentira que não daria conta de que nesta lua cheia eu sangrei só pernas e panos.

Camisa de forca

Eu tenho certeza que eu sou o manicômio que nunca acaba eu sou o excesso a fala carregada de insanidade e me oferecem água achando que é sede ou melhor fingem que acham a verdade é que com a boca cheia é fácil calar e cidadão de bem é generoso no começo aquela coisa a esperança o abraço caloroso depois eu já sei problema de mulher não se resolve nessa instância mas porra né eu vi esse filme desde a infância já decorei a diferença entre o braço que acolhe e a camisa de força eu sei a gente pode achar de novo que é forte e quebrar os hospícios ate o último vergalhão mas construíram um bem aqui eu nunca achei a chave do meu imagine do seu mas por favor amigas nao me dêem ouvidos amanhã tem banho de sol

Sobre o desamor do homem e sinonimo de ser humano de cu é rola

Tudo começou a virar prática quando ganhei minha primeira boneca, por volta dos 3 anos. Assim como minhas amigas, nessa idade eu também já aprendia a cuidar de alguém que dependia de mim. Empurrava carrinho, dava banho, trocava roupa, cuidava do cabelo. Quando estava boa nisso e alcancei o instinto materno, pude avançar de nível, então vieram as panelinhas.

Meu irmão era pouco mais novo que eu e, assim como seus amigos, brincava com uns carrinhos – aprendia sobre peças, velocidade, espacialidade. Ele também ganhava uns brinquedos de montar e criar objetos. Não tenho o que reclamar dos meus pais, eles me deixavam brincar de tudo, mas curiosamente algo já estava definido. Quando cresci mais um pouquinho ganhei um Tamagoshi – aquele bichinho virtual que precisava ser cuidado-, que a maioria das meninas tinha (e os meninos não curtiam).

Eu adorava ler! Tinha em casa uns livrinhos, e lembro das histórias de princesas. Eram moças muito jovens que passavam a vida inteira se dedicando a serem boas pretendentes: aprendiam a cozinhar, a limpar a casa, cuidar dos bichinhos, e principalmente aprendiam a estarem lindas, sorridentes e limpas independente do que fizessem. Após tal processo, passavam a esperar o príncipe que as escolhessem. Iam aos bailes mostrarem-se disponíveis e ficavam ociosas nessa espera. Passavam dias se arrumando e competiam com suas amigas. Sobre o príncipe, sua única tarefa era escolhê-la. Ela devia ser muito incrível e ser aprovada por todos, e não devia cometer a afronta de negar o sortudo pedido de casamento. As que negavam acabavam sendo aquelas tias reclamonas e recalcadas, as velhas dos gatos, as bruxas vilãs solteiras com verruga no nariz. Ou seja, malvadas ou inúteis.

Eram contos de fadas, mas na verdade não tanto. A história das mulheres que morreram na caça às bruxas da Inquisição, ou que foram internadas em manicômios, é basicamente a mesma. As que não se adaptavam à tarefa de servidão doméstica – que trás consigo uma infinitude de entrelinhas -, eram perseguidas, sendo condenadas à morte ou a loucura. Nessa época bem familiar a de hoje, qualquer manifestação de sentimento feminino era considerado histeria – as mulheres deviam estar dispostas a sexo com homens a qualquer momento, à atenderem suas necessidades, a não questionarem. Era sintoma de distúrbio psicológico manifestar considerações próprias, qualquer coisa a respeito de si mesma – e para tratar isso criaram o vibrador.

Quando entrei na escola, os livros diziam coisas como “o Homem está no topo da cadeia alimentar”, “o Homem descobriu que a Terra era redonda”. Então eu entendi que homem era sinônimo de ser humano. Ao mesmo tempo, eu ouvia minha avó dizendo que todo homem é igual. Que homem não presta. Que eu não deveria namorar tão cedo. Vovó era bem bacana, mas certamente aquela palavra que ela usava não significava seres humanos, afinal, por mais bacana que fosse, ela não cogitaria falar sobre namorar mulheres também. Então minha cabeça passou a achar que as avós eram moralistas com esse papo de homens não prestarem, simplesmente pra que a gente não namorasse mesmo. Eis aqui o primeiro recado: escutem suas avós.

E começa aqui nosso choque de realidade. Não é atoa que nossas histórias atuais pareçam tanto com a dos contos de fadas que líamos quando crianças; nem com o passado da Inquisição. Não é atoa que nossa vivência adulta se pareça tanto com aquela que nos foi ensinada quando tinhamos 3 anos. Certamente essa educação precoce não foi por acaso: a dificuldade tem de ser aprendida desde muito cedo para que seja assimilada com perfeição.

Obviamente eu contrariei e logo comecei a namorar meninos. Não demorou pra que, vivendo no universo masculino, eu passasse a achar bobas todas as coisas que saíssem de mim ou fossem minhas – gostos, objetos, interesses, vontades, filmes, passeios, modos de falar, de sentar, roupas, etc. Os meninos endossavam bem o coro de “ah mulherzinha”, quando algum colega parecia feminino – leia-se demonstrar sentimentos. Algumas vezes ele simplesmente dizia estar gostando da colega de turma. Alguns meninos na escola me perseguiam e me seguravam forte, puxavam meu cabelo ou me cuspiam água. As professoram me explicavam que eles faziam isso porque, na verdade, gostavam de mim.

Fui crescendo e as experiências foram evoluindo pra visitas em casa, namoro fixo, convivência cotidiana íntima. Eu imaginava que aqueles rapazes com quem compartilhava a vida fossem meus melhores amigos. E eu nunca entendia porque toda semana eu acabava sentindo algo esquisito que chamo de frustração confusa. Tal frustração surgia toda vez que eu precisava me abrir ou expor algum sentimento e o namorado ou não entendia, ou procurava algo melhor pra fazermos. Muitas vezes eles faziam piadinhas, dizendo que eu era chorona, e me chamavam pra tomar sorvete. Quando eu já não podia mais trocar minha necessidade por sorvete e insistia em falar, eles faziam uma expressão de tédio. Não sabiam o que falar, achavam chato, e chegavam sempre ao momento de tentar transar quando estavam exaustos de ouvir aquilo. E se eu não quisesse, eles reclamavam sutilmente sobre essa minha reação. Eu me sentia mal por não satisfazê-los e por sentir essas coisas. Parece que os tempos não mudaram.

Nos programas de comédia na televisão, aprendi que as mulheres são as rainhas das “DR’s”. O que nós mais gostamos de fazer é discutir relação. O curioso é que depois descobri que chamam de DR qualquer conversa onde se exponha sentimentos mais profundos, que fale sobre si e sobre o outro – que fale sobre a relação. E todas as vezes que imaginei uma conversa onde se abrisse pra isso, foi bonito! Só na imaginação. Os homens não aprenderam o que é isso e lidam como se fosse uma afronta. Eles mudam o humor, criam uma aura de briguinha e te culpam por querer levantar questões sempre. Comigo não foi diferente. Perdi a conta de quantas vezes deitei dizendo que estava meio triste por conta de sua reação e o companheiro dormiu. Ou quis transar.

Não demorou pra que eu fosse chamada de histérica – e olha que nunca fui exaltada, apesar de ter mil motivos pra ter sido. Fui me entendendo como aquilo que os homens me chamavam: cheia de questões, problemática, intensa, racional demais. É, fui culpada diversas vezes por racionalizar demais as relações. Me sentia queimada na fogueira toda vez que me abria. Foi então que entrei num ciclo vicioso de relacionamentos abusivos, onde eu me anulava todo o tempo pra relevar minhas pendências em prol do bem estar do homem. Porque, se meu próprio namorado não era capaz de lidar com elas e me ouvir, eu realmente devia estar sendo exagerada. Diziam pra eu ser mais madura e para de jogar pesos sobre eles. Comecei esse processo de crescimento, mas os diálogos mentais não cessaram. Eu conversava com eles mentalmente e sempre era incrível. Era maduro, era carinhoso e acalentava a alma pelo compartilhamento de amizade e dedicação mútua. Não tinha peso nem culpa, nem expectativa elevada – tinha apenas compreensão.

Eu não conseguia entender isso, apesar de me esforçar muito – como sempre. Não entendia como pra mim era tão leve e quando expunha pra eles era tão pesado. Eles diziam que era a forma que eu falava, meio grosseira, cheia de cobranças. Então eu modifiquei totalmente o modo de abordagem. Fiz várias vezes, vários testes diferentes. Passei até a tentar não falar mais nada. Pra mim isso era bem ruim, então passei a falar com muita delicadeza e carinho. Nada mudou, e eles diziam que eu tinha que aprender a ceder pra relação funcionar. Nada mudou, mas a culpa continuava sendo minha. Por que na minha cabeça tudo funcionava tão bem?

Fui procurar ajuda na terapia, fiz meditação, acupuntura. Pra curar minha histeria o vibrador foi insuficiente, mas tentei outros meios. Me tornei uma pessoa muito calma, porém cheia de culpas que não sabia como eram minhas – mas eram. Mas a vontade de conversar não passou. Achei que estava louca ou tinha depressão. Na terapia eu falava “doar” e minha terapeuta dizia que minha boca pronunciava “doer”. Namorar homens é complicado, por conta de toda criação desigual já mencionada: você acaba vivenciando milhões de machismos, silenciamentos e violências sutis ou não. E isso deve ser conversado, assim como qualquer sentimento bom também deve ser conversado – e é essa parte boa a única parte que eles aceitam ouvir. Qualquer coisa dita fora disso, por mais calma e “namoral” possível, era o cúmulo da minha incapacidade de relevar as coisas. O que meus namorados não entendiam é que se eu estava disposta a namorá-los, eu estava automaticamente disposta a relevar um monte de coisas para que isso fosse possível. Começando pelo fato deles serem homens! Mas eles não podiam participar do processo de melhora de hábitos próprios. Toda vez que mencionava algo, era como se eu estivesse fazendo deles um monstro. Eu. Fazendo deles.

Quanto mais eu conversava e convivia com amigas que também namoravam homens, mais eu via o quanto essa história era repetitiva. O quanto todas nós em algum momento nos víamos inteiramente dedicadas sozinhas a manutenção do relacionamento, uma vez que os homens se mantinham incapazes de lidar até com seus próprios erros. Mas tinham facilidade em apontar os nossos. E sim, precisamos falar sobre exploração afetiva. Nós realmente fomos criadas pra servidão, pra disponibilidade e dedicação extrema – o padrão desses relacionamentos é você ser o colo do homem todo o tempo e quando é você quem precisa, se depara com a pontinha de uma perna. São eles os distantes, os que não se preocupam com saúde sexual, os que não gostam de camisinha, os que não dividem o custo do anticoncepcional, os que não te ajudam a lidar com os efeitos colaterais da pílula, os que não gostam de “tretas”. Somos nós mulheres que nos descabelamos pra achar as soluções de tudo, e vamos procurar ajuda com outras amigas – porque você já foi tão chata com ele, que ele deu ultimatos sobre continuar a relação.

Crescemos cuidando de outros seres enquanto esses namorados cresceram desmontando carrinhos. Enquanto passamos a vida sendo afogadas num sonho de casamento e final feliz, os homens estavam sonhando com qualquer coisa. Esse padrão romântico pode parecer coincidência, mas definitivamente não é. Lembro quando meu irmão brincava de casinha comigo. Eu usava uma barbie, e ele queria usar um boneco de um tamanho muito menor pra ser meu marido. Eu brigava com ele e não deixava, dizia pra usar o boneco do tamanho da minha. E não era falta de imaginação: era apenas pelo fato de que o matrimônio foi empurrado goela abaixo das mulheres. E aquilo era importante demais pra mim pra que ele não levasse a sério.

Outra parte do padrão é a destruidora capacidade que as mulheres tem de negligenciar sua própria vida afim do relacionamento. Tanto eu quanto minhas amigas acabamos com frequência faltando aulas, desmarcando encontros e compromissos diversos para podermos cuidar e/ou ficar junto com o companheiro. E o oposto não acontece. Os homens, naturalmente, continuam com seus planos, seus estudos e empregos. Há quem diga que isso é um dom, que as mulheres são os seres iluminados; citam até o espírito materno. Fizeram aquelas frases “por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. De cu é rola! Esse anulamento feminino não é bonito. Ele é consequência de colocarem o casamento como prioridade na vida das mulheres e, como os tempos mudaram, você pode substituir “casamento” por “namorado”, “boy”, “pênis”, por exemplo.

A sociedade só valida a existência feminina quando ela arruma um homem. E aí a vovó se contradiz e fala “segura esse macho!”. Os contos de fadas se repetem e acionamos tudo o que aprendemos para conseguir segurá-lo. Me lembro de algumas vezes que eu estava tranquila sozinha e algum homem me pediu em namoro. Diversas vezes não me apeteceu, mas eu aceitei. Outras tantas eu dei seriedade demais a algo que pra mim nem era tão importante – e isso não é sobre irresponsabilidade afetiva, e sim sobre apenas não desejar estar com tal pessoa. Definitivamente eu amo estar sozinha, mas por um motivo que luto contra, meu pensamento sempre está em alguém. Ainda que nem estejamos juntos, parece que eu e minhas amigas vivemos numa busca incansável por uma completude que não nos disseram que está em nós mesmas. Não, isso não é por acaso.

E essa busca é muito triste, porque quando falhamos numa relação é como se tivéssemos falhado enquanto pessoas. Como se fossemos ruins. E realmente sentimos isso, já que é a nossa principal função manter um namoro funcionando. Quando o rapaz termina sentimos um ego ferido que difere muito ao que o homem sente. Enquanto competimos com nossas amigas quem arranja o melhor namorado – mesmo inconscientemente-, esses namorados estão conversando entre eles sobre suas aquisições materiais, intelectuais, degustativas. Os homens foram criados aprendendo posses, lidando com objetos. Quando um rapaz de quem gostamos não nos quer, nos sentimos ruins, feias, desinteressantes e desistimos. Mas quando acontece o oposto, funciona como se tivessemos ativado o botão de insistência deles. Como se eles não conseguissem lidar com esse objeto que não podem ter.

Assim como nos livrinhos infantis, são os homens que decidem quem, quando e onde começar um relacionamento. As mulheres só devem permanecer na vitrine esperando e, se alguma resolve pedir um rapaz em namoro, é chamada de ousada demais ou desesperada pra casar. Não precisamos nem pedir em namoro: estar ficando com um cara e dizer “vamos nos ver de novo?”, ou começar qualquer assunto sobre nossos sentimementos já é o bastante para ser aquele peso gigante inaceitável. Como se realmente quiséssemos namorar todos os homens com quem ficamos. Na maioria das vezes só queremos ter um papo menos superficial mesmo.

Cansada de ser taxada de apressada, tratei de aprender que pra dar certo e ser escolhida, tenho que seguir a lógica dos meninos que me batiam quando gostavam de mim: fingir que não estou interessada! Ou melhor, ser indiferente e cruel. O típico comportamento masculino é esconder sentimentos e ser negligente. Sumir sem dar notícia, se calar sem explicar, aparecer só quando é conveniente, parecer ótimo o tempo todo, fingir que não sente nada. Os filmes de sessão da tarde ensinam bem sobre como as mulheres não devem ligar no dia seguinte ao encontro. Ser indiferente mesmo. É sério que vamos criar relações com tais bases?

Quanto mais moderninhas pessoas com quem ando, isso fica mais explícito. Pra ser mais livre eu preciso não ligar pra nada, estar ok com tudo sempre. Cumprimentar todos sorrindo e aceitar as propostas de beijo, sexo livre e relacionamentos efêmeros que pouco se importam com minha existência. Mas a verdade é que independente do grupo, vai ser assim – com a diferença perigosa de que no grupo dos desconstruídos isso é disfarçado de liberdade. Mas essa liberdade não soa muito masculina? Eu definitivamente não almejo ser desumana como um homem, embora saiba que a criação das mulheres também me fez doentia em vários aspectos. Mas continuam sendo nós, eu, minhas amigas, minha mãe, minha avó e as mulheres em volta, as pessoas que cuidam e se preocupam de verdade com o sentimento dos outros. Somos nós que nunca dormimos quando alguém ao nosso lado diz que está triste. Somos nós que somos transparentes para que o outro não fique inseguro. Eu não desejo destruir isso em mim para ser capaz de me relacionar com outros seres, porque a consideração e cuidado é a base pra qualquer afetividade.

Há quem diga que os homens aprendem a amar quando viram pais. Eu ainda não acredito nisso, uma vez que nem essa tarefa – cuidar da criança de verdade – é considerada deles. Gastaram dinheiro me dando bonecas na infância com uma finalidade bem estabelecida.
Não parece muito óbvio o quão mais frequente é as mulheres falaram sobre as relações e a manutenção das mesmas? Foram as mulheres as ensinadas a trabalhar isso, aprendendo a se pôr no lugar do outro, aprendendo como é se relacionar. Nós sabemos o que é cuidado e compreensão. Nós é quem sabemos o que é ceder – e até demais. A questão é que esse aprendizado não é ruim e muito menos bobo. Toda pessoa que ame ou acredite no amor, sabe do que estou falando.

E ser a favor disso não significa que sou a favor de que todos casemos e invistamos em famílias tradicionais. É algo bem diferente: apenas que tratemos quem amamos com a devida importância, e que cuidemos todos de nossos afetos. Mas insistir nesse modelo narrado acima significa criar relacionamentos abusivos onde as mulheres são as maiores vítimas. Onde suas existências são sempre invisíveis. Onde tudo que é humano é feminino demais e pesado além da conta. Precisamos entender como abusivos esses namoros onde ficamos confusas, onde lidamos com tudo sozinhas, onde criamos diálogos mentais por não podermos falar de verdade. A história se repete.

E amigos homens, seres inteligentíssimos, revolucionários da liberdade: vocês já deviam ter pensado sobre suas próprias crises existenciais e o mundo infeliz que estamos construindo. Quando o amor – em suas manifestações – é colocado como sentimento essencialmente feminino num modelo social que diminui e ridiculariza tudo que vem das mulheres, é óbvio que vai ser uma sociedade doente.

O sentimento é algo construído para ser apenas feminino. E qualquer observador percebe o quanto as coisas femininas são inferiorizadas. E não, eu não quero amar menos. Não quero tratar os outros com indiferença. Quero ser amiga, quero ouvir quem precisa. Eu quero sim me sentir suficiente sozinha e quero que parem de ensinar as meninas que elas precisam de um marido para serem “a grande mulher por trás dele”. Mas não somos nós, mulheres, que devemos nos adequar as formas masculinas de “amor”, são os homens que devem aprender a amar com o mesmo esforço que nós fizemos!

Deixem seus filhos brincarem de boneca. E quanto aos homens crescidos, não sejam casos perdidos. Sei o quanto vocês reclamam de como os romances são “líquidos” e que os “novos tempos de internet afastam as pessoas”. A questão não é o tempo, como podem perceber. Reconheçam em vocês o desamor. Ouçam suas companheiras, elas cresceram aprendendo a lidar com seres humanos e, dessa forma, a serem humanas. Vocês aprenderão também.

tudoc2

Leia também: Os homens que não amavam as mulheres

Um abraço especial pra minha amiga Jéssica Mello, com quem aprendo muito sobre – e vivo! – amor, e foi fundamental nas conclusões desse texto a partir de conversas no sofá. Te amo!

Quando a vida foi um mar de ressaca

Em um momento comecei a me sentir vez ou outra imersa dentro de um mar muito forte, – desses grandes, nervosos. eu, que passei a vida admirando águas, crescendo em volta de grandes lagoas, me deparando com rios suaves e poças de chuva de verão, estava considerando uma boa ideia essa dificuldade marítma. pensei, talvez, ser uma característica de uma nova fase que ainda não conhecia. uma mais séria, cheia, cheia de realidade, que me aguardava ali – observando meus passos de infância de conta-gotas. entusiasmada, enchi-me de orgulho pelo o que havia alcançado: afinal, sempre me fascinaram as ressacas. Ressacas que tudo levavam, cheias de autonomia e força, modificando a estrutura do lugar por onde passavam. quando elas vinham, eu as olhava imóvel, silenciada e constante. como se elas me continuassem. a vida foi assim.

de pouco pra cá, senti que uma delas resolveu mesmo me continuar, e é disso que queria falar pra gente. eu mergulhei totalmente nesse mar furioso – algumas pessoas até me diziam que essa deveria ser assim -, e ignorando meus conhecimentos de vida dentro d’água, entreguei-me a essa condição como algo novo. como poderia ter previsto, eu cansei. nadar em um mar de ressaca é desgastante e perigoso, sim, e insistir nesse nado requer um nível desnecessário de energia – que deve ser direcionado apenas pra esse fim. será que eu esqueci tudo o que tinha aprendido? vovó me dizia sempre que mar não tem cabelo. e então eu precisei encontrar um fôlego adormecido pelo desespero do afogamento, e utilizá-lo pra me deixar voltar à margem.

tentando acalmar minha mente no meio desse caos, fui resgatando o que já havia dentro de mim. eu sabia bem como sobreviver dentro do mar sem encostar os pés no fundo, mas no meio de tanta confusão, as coisas de perderam. fui me concentrando em não afundar, e aos poucos, fui compreendendo os métodos que fazia para conseguir manter-me respirando ali.

eu poderia aproveitar o movimento da ressaca e deixar que ela por si mesma lançasse meu corpo para a praia novamente. mas isso significava precisar de força suficiente para suportar as batidas majestosas em minha cabeça e intermináveis minutos sem respirar. e, caso conseguisse, provavelmente quando chegasse próximo a areia, já estaria quase definhando, a ponto de ser puxada novamente. não parecia uma boa ideia. eu poderia permanecer no fundo e nadar até longe, alcançando uma outra praia onde não houvesse ressaca. também seria muito esforço e, se eu não conseguisse no meio do caminho, acabaria retornando para onde comecei. a ressaca ali permanecia. não eram boas opções.

lembrando as palavras de vovó, pensei… ainda que o mar não tenha cabelo, eu ainda tenho. a opção pra aquilo tava em mim e só precisava buscá-la. nadei, nadei, nadei. nadei até muito distante da praia, onde o mar já fazia o trabalho de levar-me pra longe sem que eu me desgastasse tanto. ali, ainda que a corrente me fizesse viajar, não havia a violência das ondas. por um tempo permaneci, lembrei que podia boiar, e desse jeito, consegui ganhar tempo pra organizar as ideias e descansar um pouco. conclui que foi uma péssima ideia me lançar naquele mar e que agi sem dar importância aos meus próprios instintos – que sabiam bem que era uma ideia péssima. impulsionada por influências exteriores me confundi. por sorte, ainda havia um pouco de mim mesma a quem recorrer.

eu não precisava lutar contra aquela força do mar, que era maior que a minha naquele momento. eu podia focar em sobreviver com minha destreza. boiando, então, deixei a ressaca estar, sem intenção de bater de frente com ela. ela permanecia ali, bem próxima de mim e querendo me pegar de volta a qualquer momento. com o tempo, ela foi diminuindo e acalmando, e eu, ainda cansada, mas um pouco serena.

me adequando ao balanço, fui conseguindo me locomover sobre os vai-vens e resolver os imprevistos aceitando a presença deles. quando chovia era ruim, mas por mais ruim que fosse, não ia parar de chover apenas por ser um incômodo para mim naquele momento. até porque, a chuva ali incomodava, mas me foi necessária em outros tantos dias quando estive me alimentando na terra – e ao mundo inteiro estava sendo essencial. a cada vez que a ressaca aliviada, eu conseguia me aproximar da costa, até já conseguir enxergar as casas lá longe.

o mar ainda não tava totalmente manso, mas ali eu já sabia como fazer. me sentia um pouco mal por ter esquecido de me ouvir, mas satisfeita por estar voltando pelo caminho conhecido. próximo à beira ainda quebravam grandes ondas, mas eu lembrava como lidar com elas – eu sabia como furá-las, passando por baixo, sem deixar que elas esmagassem meu corpo. eu realmente não precisava enfrentar maior fúria daquelas águas. não era necessário que eu me submetesse àquilo, que deixasse meu corpo ser entregue e sofresse ralados ao me jogar na areia, chacoalhando consigo tudo ali, dentro da enorme espuma branca que enroscava-me pouco tempo antes. fui capaz de deixá-las um pouco mais quietas, então nesse momento eu já lembrava de como viver leve no mar. eu mergulhava por dentro das ondas antes que elas estourassem e, para cuidar de meu corpo cansado, aproveitada o ângulo exato do mergulho – onde eu pudesse sentir a massagem do estouro ainda sobre as costas.

eu já podia sentir o chão sob meus pés e com isso tinha certeza do retorno de minha lucidez. me senti mais orgulhosa do que quando dei aquele salto ingênuo. papai me disse algumas vezes que a gente tem que respeitar o mar, e que quando perdemos o medo é quando o pior acontece. me senti aliviada por ter considerado aquela ressaca algo muito maior do que poderia suportar durante minha vida. essa nova fase não precisa me socar na areia e me afundar em valas para ser real. eu sempre soube lidar com o mar e sempre soube a hora certa de entrar e de sair. perto da praia eu já sentia prazer e, apesar do cansaço e vontade de deitar em casa, optei por não ter pressa – o tempo passava desgovernado ali bem próximo de mim. naquele humor das ondas, elas já conseguiam me manipular sem me machucar e dessa forma eu me aproximava cada vez mais, vagarosamente. pude de novo voltar a reparar as gaivotas, os barulhos de vozes distantes e um batuque de alguma reunião festeira. provavelmente era fim de semana. eu nesse período me perdi no tempo, mas agora não sofria com isso.

quando vinha uma onda maior, eu me aproximava dela e a utilizava para me elevar: quando chegava ao seu ponto mais alto de água, conseguia ver pedaços de terra adiante, que antes não era capaz. essa sensação me extasiava e me fazia pensar em como essas ondas há um tempo atrás tinham potencial pra me elevar tão alto quanto tinham pra me desabar ao infinito.

assim fui indo, até que o mar se despediu, me colocando gentilmente na faixa molhada de areia, acariciando meus pés com sua renda branca que ia e vinha – nunca precisando escolher se queria só ir ou ficar.

 

Para DArVIda, com amor,

Júlia.

A insustentável leveza do não-orgasmo e a falsa liberdade sexual feminina

Eu sou mais uma mulher que, sob a falsa bandeira revolucionária da liberdade sexual feminina, começou sua vida sexual de forma muito precoce. Foi majoritariamente com homens – e com seus incentivos – que minhas primeiras transas se deram há 6 anos, quando eu tinha recém feito 14.

Antes de me envolver em relações sexuais, eu já me masturbava com frequência, muitas vezes no banheiro – gozava sempre e razoavelmente rápido, em paz. Nessa época eu era bem criança e, apesar de já receber olhares invasivos dos homens, não havia caído ainda na serventia compulsória de agradá-los, de existir em sua função.

Não demorou muito para que isso acabasse e me ensinassem que mulheres amadurecem mais cedo que homens. De maneira muito fácil, assimilei, como boa aluna, que era assim mesmo: os meninos da minha idade brincavam de carrinho, enquanto eu já despertava desejo sexual por onde passava – dos mais velhos, afinal, eles sim já haviam amadurecido. Então eu não me preocupava mais com brincadeiras bobas, até porque todos esperavam mais de mim.

Na escola, alguns professores me olhavam de forma diferente. Eu gostava quando eles diziam que eu era inteligente, que eu nem parecia ser tão nova – muitos diziam que eu era bem madura, que parecia ser bem mais velha. Achava ótimo, já que os meninos da minha idade não se interessavam em se relacionar com meninas, e eu já estava vivendo essa fase. Passei a ter meus amigos como bobinhos e a buscar aprovação masculina. Muitas amigas eram muito reprimidas e não falavam abertamente sobre sexo ou sobre seus corpos – mas logo percebi que todos os homens gostavam quando eu falava, diziam que eu era muito livre e diferente (o que me agradava bastante, uma vez que tudo que eu queria era ser livre).

Sentia-me muito bem por não ter tabus sexuais. Era bem-vinda nas rodinhas masculinas e falava que as meninas eram sem graça e cheias de frescura, já que os amigos falavam isso pra mim, dizendo o quanto eu era mais madura e legal que elas.

Aos 14 tive um namorado que deixava implícito que só ficaria comigo quando a gente transasse. Tive um receio, mas eu gostava dele e isso não poderia ser um problema logo pra mim. Quando aconteceu, tive muito orgulho de mim mesma, mas o processo todo foi um pouco difícil: eu me lavei muito antes, procurei uma gilete em casa, usei, e fui. Dessa vez ele gozou, eu não. Tudo bem, me disseram que ia doer muito.

Ele era bem-humorado. Às vezes fazia piada quando transávamos muito, dizia que minha vagina (buceta, né) tava tão larga quanto um túnel. Dizia que meu peito era meio separado, e sorrindo, juntava eles com as mãos, levantando-os um pouco. Falava pra eu me depilar, que tinha muito bigode, etc. Quando estávamos bem, ele disse “até que você é bonita, meio exótica.” Eu sempre fui uma mulher dentro dos padrões violentos impostos e aceitos socialmente – magra, branca – ou seja, não tive dificuldades de ser considerada bonita e agradável. Mas o poder devastador da opressão masculina é cruel e muito difícil de se identificar, principalmente quando se “ama”, e pior ainda, quando se é uma criança – fácil de dominar.

Depois dele, vieram muitos outros. Alguns eram mais sutis, mais gentis. Sugeriam que não gostavam de pelos, brincavam que vagina tinha cheiro de bacalhau, essas coisas assim. Fui aprendendo a ficar mais atraente, comprei umas revistas que ensinavam a dar prazer aos homens, uns sabonetes íntimos com cheiro de morango e passei a tomar pílula anticoncepcional, porque eles diziam que era muito chato usar camisinha. Eu já era tão livre que um deles até me disse: você é a namorada que todo homem quer! É bi, não tem ciúme e é bonita.

Passei anos transando muito. O namorado mais duradouro tentou me fazer gozar duas vezes me chupando, mas eu não consegui. Depois de uma semana ele me deu meu primeiro vibrador. Durante todo esse tempo, eu nem me masturbava mais como quando mais nova, desaprendi, – dedicava tanto meu corpo aos homens que nem pensava muito em sexo quando tava sozinha, afinal, pela regra, eu era sexualmente bem resolvida. Muitas vezes eu nem queria transar. Mas como nunca era tão prazeroso mesmo, aprendi a ceder aos namorados sem tanto sofrimento, pra agradá-los, assim eles seriam mais fiéis e não precisariam buscar outra menina. Esse namorado me falava pra eu ir à academia malhar, até pagava pra mim – dizia que minha bunda podia ser maior, era só eu querer.

Quando ganhei esse vibrador, eu já tinha uns 16 anos. Eu me sentia confortável pra gozar com meu namorado usando ele, e passei a usá-lo sozinha durante os dias que não nos víamos. Só que o tempo foi passando e o sexo começou a ser desgastante, muito porque só ele gozava e eu gozava com o vibrador – e dessa forma eu já me satisfazia sem ele. Um dia ele me disse que era pra eu não me masturbar durante a semana, porque eu perdia a vontade de transar com ele por causa disso. Repetidas vezes quando ele gozava e eu tentava me masturbar depois, continuando o sexo pro meu orgasmo, ele já estava deitado de olhos fechados (mesmo percebendo minha necessidade).

Dos 14 aos 18, foram 4 anos sem saber gozar de forma autônoma. Ninguém conseguia me dar prazer, mas eu me garantia no vibrador. Quando alguns caras percebiam meu problema, eu dizia que era super normal, que pra mim o que importava era o contato, que eu não precisava gozar sempre! Quem precisa? O sexo é bom por tudo, não precisa acabar em orgasmo. Certo. Dessa forma eu me iludi pra dar uma sensação de leveza aos homens, e continuei transando muito sem que gozasse nunca – isso pra mim era normal, desde que transei a primeira vez. Até porque em todo lugar diziam mesmo que mulher é mais difícil de gozar. Então eu me atinha aos manuais para um bom boquete.

Quando algum me chupava, eu não gostava muito – a maioria não se importava, outros não sabiam o que tavam fazendo e eu ficava fingindo prazer, eles ficavam com tesão ouvindo gemidos. Nas raras ocasiões onde era mais ou menos bom, eu tentava relaxar, mas era torturante e impossível: ficava preocupada com meu cheiro, lembrava das revistas que diziam “se tiver um pelinho fora do lugar, o amado vai fugir! Se tiver ferida de depilação é feio!” (acrescentar aqui suas milhares de preocupações quanto mais fora do padrão desejado de mulher você for), pensava que de qualquer forma não gozaria, porque a maioria só chupava durante 5 minutos – quando começava a ficar bom, acabava. Fora isso, quando durava mais, eu já me preocupava por estar sendo cansativo pro rapaz e me sentia um peso por ser tão complicada. Os filmes pornôs mostravam umas três lambidas e só, mesmo.

Comecei a falar pra todos eles que eu tinha um problema, que não conseguia gozar acompanhada, mas que não era pra eles se importarem com isso. Falava isso quando me sentia culpada por não gozar, pra evitar o constrangimento de o cara resolver tentar e falhar. E eu realmente achava que isso era um problema que eu tinha, como uma deficiência, algo de frigidez.

Com 18 anos foi a primeira vez que eu consegui gozar na boca de um homem. Foi extremamente difícil e demorado, mas ele me deu uma mínima segurança com meu próprio corpo e disse estar disposto. Mínima segurança porque ele gostava também de parecer livre, mas na verdade era muito opressor, ainda que mais sutil. Passei a usá-lo nas minhas desculpas: eu tenho dificuldade mesmo, só uma pessoa me fez gozar na vida. Assim os caras transavam comigo com menos pressão.

Aos 19 foi quando entendi melhor tudo o que passei, meus relacionamentos abusivos e minhas feridas consequentes deles. Fiquei um bom tempo sozinha, passei a amar mais meu corpo, entendi meus pelos e meu cheiro. Entendi a cultura pedófila onde meninas são entregues banalmente a homens bem mais velhos, onde mulheres precisam se depilar totalmente para parecerem meninas.

Entendi que dominar meninas é muito fácil, e que moldá-las a seres frágeis e submetidos é natural, e que tal cultura é muito funcional para explorar nossas crianças. Numa sociedade machista, onde o homem detém poder, as mulheres servem como suas propriedades – e é muito mais fácil controlar uma menina em fase de aprendizado, buscando sua autonomia. Destruir sua auto-estima e confiança nessa fase é ainda extremamente eficaz, pois é algo que possivelmente a perturbará para o resto da vida – seja por traumas consequentes ou por absorver tal criação.

Voltei a conhecer meu próprio prazer, como comecei na primeira infância antes de roubarem isso de mim. Descobri que todo o sexo que já havia feito era apenas para agradar homens, reproduzindo inclusive imagens de uma indústria pornográfica – que violenta mulheres – para ser visualmente erótico. Nada daquilo havia me dado realmente prazer, e pra me enquadrar no status mulher livre sexualmente, me podei tanto que tinha vergonha do meu corpo. Tive que passar por situações horríveis que uma menina de 14 anos nunca deveria ter passado. Aprendi que pra eu gozar tem que ser tudo diferente, do meu jeito – e não é nada do que mostram por aí. Tenho amigas que dizem saber gozar, mas que raramente conseguem, por terem medo da reação do cara. O nosso prazer está tão em prol do homem, que é normal fingir orgasmo, um gozo manjado de filme, para que ele fique contente e ache que é um ótimo parceiro.

Quando ouço que “feminista é tudo mal comida”, percebo o quanto essa frase é útil pra que as mulheres não se libertem de verdade e continuem agindo em função dos homens. Quanto mais você é ciente do próprio corpo e de tudo que te violenta, mais você fugirá disso e mais prazer consigo mesma você terá. Ou seja, dar prioridade pras mulheres ao invés dos homens, foi fundamental pra que eu aprendesse a gozar.

Ainda tenho dificuldade pra gozar, e se não sentir que o outro se importa, me sentirei péssima. É muito fácil voltar a pôr meu próprio prazer em segundo plano, e sei que não me desamarrei disso. A vida inteira tendo meu prazer reprimido, tido como algo errado, e só considerável quando explorado para o bem masculino. Ainda sinto as amarras da obrigação de fazer meus companheiros muito satisfeitos. Ainda recebo deles os olhares de decepção quando não gozam. Ainda transo sem vontade para que eles não fiquem estressados. Ainda sofro. Mas apesar de tudo isso, tenho consciência de que não é um problema meu, e quando me disponho a me fazer gozar, principalmente sozinha, consigo muito rápido, ao contrário do que os manuais ensinam sobre nossa eterna jornada.

Isso é compreender que a liberdade sexual feminina é usada estrategicamente para manutenção de privilégios de dominação patriarcal, e que de liberdade não há nada. Hoje em dia, com 20 anos, ainda acho que nem todo sexo precisa acabar em orgasmo. Mas por lembrar de como fui ofuscada atrás dessa máscara para prazer do outro, tenho cuidado com tal afirmação.

A insustentável leveza do não orgasmo é não desmanchar em preguiça e falta de energia na cama após um gozo, como meus companheiros fazem: fico leve e disposta. Mas é também eternamente carregar esse peso – que pesa em todas as mulheres – sobre meu ser.

AMARras

Sobre outras falsas liberdades, você poderá gostar de:

Sobre aquela mesma coisa de sempre disfarçada de amor-livre / Sobre ciúmes e a posição da mulher na luta não-monogâmica

Dos ventos que não mais sopram

Já não bastava sentir a vida sem vento no rosto. Isso posto definido em seu interno, quando o vento não batia, lembrava do mundo enfermo; mas ela já sabia como balançar sua própria saia. Os cabelos já eram tão curtos, o que amenizava a recorrente lembrança de uma vida sem brisa.
Se perguntava, no ponto em que estamos pra quê ainda existe para-brisa e para-lama? Talvez dê sensação de que no asfalto ainda tem chão. Ela não se enganava: essas coisas perpétuas só em palavras.
Vivia em giro eterno, rodopios que dançavam os pêlos de seu corpo. Diziam que ela se bastava, ela sabia que bem assim não era. Era inteira, sim, e de muitos foi composta; mas inventaram essa coisa de se bastar… lhe soava individualista.
“Resolva teus próprios problemas, que são só teus!”
Ainda que fosse necessária a sobrevivência, ela sabia que o vento já faltava aqui e lá.

Sobre ciúmes e a posição da mulher na luta não-monogâmica

Quando eu comecei a me relacionar de forma livre, foi com um cara mais velho, mas era tudo muito novo. Inclusive eu. Vale colocar aqui que isso sempre acaba sendo bem delicado, porque a mulher já tem seu papel submisso reservado no mundo. Em uma relação com um homem mais velho, mais reservado ainda: você precisa aprender muitas coisas, e quem está ali pra te ensinar – com o poder do conhecimento e experiência -, é o homem.

Então foi assim. As coisas aconteciam e eu me esforçava pra entender e me adaptar. Ele beijava outras moças na minha frente, convivia com muitas pessoas e amores. Mas de certa forma focava a relação em mim. Eu nunca fui ciumenta e era fácil lidar com tudo isso.

Um tempo depois eu comecei a me relacionar com outras pessoas e percebi que isso não estava sendo da forma como eu imaginava: o rapaz não respeitava meu espaço, reclamava comigo e ainda me colocava como culpada.

Exemplificando: quando me via com um homem, ele vinha e me dava um beijo pra marcar território. Vez em quando dizia que fazia de tudo pra me ver e quando chegava, eu estava com outro e que isso o fazia mal. Vale acrescentar que não havia combinado encontro com ele, e estava apenas conversando com o outro rapaz. Quer dizer, vale acrescentar isso apenas porque ele realmente me tornava culpada, me fazendo esquecer que quem estava errado, e censurando minha liberdade, era ele.

Pra isso existe um nome: GASLIGHTING. Que é, resumidamente: uma pessoa agir de forma com que você passe a duvidar de si mesma, fazendo você se sentir culpada (mesmo sendo você a vítima), duvidando do seu próprio caráter. É óbvio que isso costuma acontecer em relacionamentos entre homem e mulher.

Certa vez, esse homem me disse o seguinte, após beijar uma de suas amigas: “seria muito legal arrumarmos uma menina pra você ficar hoje!”

Começando minhas reflexões. Temos aqui um homem, mais velho, tentando ensinar uma menina o que é amor livre. Um homem que acha legal que a mulher se relacione com outras mulheres, mas não com outros homens.

Misoginia: o cara despreza as mulheres, as relações entre elas, e fundamenta tudo isso na inferiorização das mesmas. Porque claro, uma mulher não representa uma ameaça aos pés da que um homem representaria. Fora a parte da fetichização. Homens, entendam: as mulheres se amam e não fazem isso pra agradar vocês.

E sobre não permitir relação com outros homens: ciúme. O que ciúme sugere é um sentimento devido a falta de exclusividade. Tem sensação de exclusividade quem tem posse sobre algo, controle, poder.

O ciúme dos homens vem disso: posse, controle e poder sobre as mulheres.

Continuando a historinha: esse mesmo homem, após alguns meses, passou a se relacionar com outra moça e me contava que era tudo muito difícil, que ela não entendia a forma livre dele de ser, não se esforçava e que ela tinha muito ciúme. Depois me contou que a tal moça, um dia, foi contar a ele que havia ficado com outro homem. E ele, contando, me disse: “mas como ela não entende, ela veio me contar se sentindo culpada, com ar de quem fez coisa errada, sabe? Então eu fiquei chateado, claro.”

O que é isso? Sim, a mesma coisa que aconteceu comigo. Ele podia ser livre, mas ela não, e ainda colocou a culpa nela por fazê-lo sentir ciúme (posse, poder, controle, exclusividade). E mais uma vez, Gaslighting.

Agora vamos pensar sobre o tal “ciúme” e a falta de esforço dessa moça. Não só dessa, mas de todas as moças. Nós, mulheres, somos ensinadas a competir umas com as outras. A fazer o melhor o tempo todo pra agradar o pretendente. A ter o corpo perfeito. A fazer direito pro cara não ter que procurar na rua. Somos ensinadas a ser monogâmicas.

Somos ensinadas que o certo é buscar um homem para a vida toda, alguém que nos dê segurança (física, econômica, sentimental). Alguém que cuide de nós. Porque não nos ensinam a nos cuidar, a nos amar e a nos proteger. A nos fortalecer. Não nos ensinam que podemos fazer isso, para que então nós precisemos da figura masculina pra cumprir esse papel. Enquanto os homens são ensinados a tudo que é oposto a isso, e a terem muitas mulheres.

Pra ilustrar: quando, num casamento, o marido passa a se relacionar com outra mulher, é comum que a esposa (por conta dessa educação toda que nos é destinada) desenvolva grande ódio por essa mulher. E pelo marido não. E ela ainda vai se sentir péssima, por não ter feito tudo de forma boa o bastante para que ele não precisasse buscar outra.

Enquanto os homens são ensinados a ser livres, as mulheres são ensinadas a ser decentes. A se darem ao respeito. A “sociedade” não enxerga com bons olhos a mulher que se relaciona com diversas pessoas. Muito menos com diversas pessoas ao mesmo tempo.

Dessa forma, homem e mulher não ocupam a mesma posição na luta não-monogâmica.

As mulheres sentem insegurança, se sentem inferiores. Isso é fruto de uma educação machista e patriarcal. O ciúme das mulheres não diz respeito ao controle sobre o corpo do homem, sobre posse em relação ao mesmo. Diz respeito ao que ela foi ensinada a ser, a posição que ela foi imposta a ocupar. A não se sentir boa o bastante. A mulher foi ensinada a se sentir uma bosta quando seu companheiro está interessado por outra mulher. E aí, a gente pode chamar isso de ciúme? É certo culparmos uma mulher por isso? Não.

O que a gente chama de “ciúme”, quando se trata da mulher, deve ser combatido. Mas não porque é ciúme. Não é. Não é poder, nem controle, nem posse. Mulher não tem esse poder sobre o homem. É justamente insegurança por não conseguir ter poder suficiente pra conseguir exclusividade (desejo consequente de um sistema que visa a propriedade privada, competição, etc). É a mulher ser ensinada a ser dependente. A não ser auto-suficiente. É fruto do privilégio do homem. E não é culpa dela. Homens devem retroceder. O que os homens vão chamar de ciúme, ao se referir a uma mulher, é conseqüência de um poder que ele exerce, que ele sustenta e que ele construiu/constrói.

Um homem que não apóia a emancipação de sua companheira, e muito menos a ajuda nesse processo, inferioriza a mesma quando ela demonstra “ciúmes”, não reconhece seus privilégios e nem retrocede, é um homem que não está fazendo nada de diferente. E essas relações “livres” serão iguais às relações monogâmicas, em termos de poder sobre a liberdade do outro.

É fácil pra um homem culpar sua companheira por falta de compreensão, enquanto ele sempre foi livre o suficiente pra exercer sua liberdade sobre ela.

Então, é muito ruim achar que mulheres estão em equidade nessa luta. São outros enfrentamentos, outras desconstruções. Se o homem não se dispuser a rever seus privilégios, numa relação hetero – principalmente -, sempre haverá reprodução de valores patriarcais, machistas e misóginos. E por que estamos nessa luta? É pra simplesmente poder “estar” com muitas pessoas?

Passando por meu texto anterior a esse (Sobre aquela mesma coisa de sempre disfarçada de amor livre), reafirmo que as mulheres continuarão sendo produto adquirido por esses homens, que exercerão sua liberdade violenta disfarçada de “amor livre”. E não vai ter amor, não vai ter cuidado, não vai ter compreensão com a parceira. Esses homens continuarão colecionando mulheres. E por serem mulheres lutando pela não-monogamia, serão lidas como “disponíveis para sexo”. E então eles terão o aval do “amor livre”, tão lindo e admirado, para simplesmente continuarem reproduzindo o que sempre reproduziram. Vivendo um amor neo-liberal, que transforma tudo em mercadoria para benefício próprio.

Como eu imagino, a luta pela desconstrução da monogamia – como sistema imposto e sustentador de diversas outras imposições – é uma luta por emancipação.

E enquanto não pensarmos, não lutarmos e não darmos espaços para as emancipações da mulher, da negra, do pobre, de todos os grupos oprimidos, não haverá nada de diferente do que havia nas relações monogâmicas.

Vale atentar ao fato de que, assim como a mulher não está na mesma posição de liberdade que o homem, diversos outros grupos lutam de posições diferentes. Uma mulher negra não está na mesma posição de liberdade que uma mulher branca, um homem negro não está na mesma posição que um branco, uma mulher gorda não está na mesma posição que uma magra, o burguês não está na mesma posição que um trabalhador, uma pessoa cis não está na mesma posição que uma pessoa trans, etc.

Ao ignorarmos a existência de diferentes posições de poder, daremos espaço para que as relações livres conversem apenas com grupos que estão suficientemente livres para poderem participar. Ou seja: homens cis, brancos e heteros, $. Que permanecerão em suas posições, apenas continuando a exercer poder sobre as outras tantas mulheres e grupos oprimidos, desprezando suas posições e colocando um rótulo de incapaz.

Não existirá relação livre, enquanto a maioria – que ainda é tratada como minoria – não for livre.

Sobre aquela mesma coisa de sempre disfarçada de amor-livre

Já faz um tempo que não estou buscando (mais) uma relação sexo-livre, como as outras que eram comuns me acontecerem – por alguns motivos que vou explicar mais pra frente. Mas como as coisas vão acontecendo, organicamente, por elas mesmas, a gente muitas vezes perde a racionalidade e deixa acontecer. Tudo bem, embora eu não busque, é bom (exceto pelos motivos que me fizeram encher o saco disso).

Pelas minhas experiências nesse tipo de relação, e observando o que acontece de forma parecida nas outras – principalmente com as moças -, consigo perceber que alguma coisa bem estranha acontece nesse universo.

As pessoas com quem desenvolvi, até sem saber, relações sexo-livre são geralmente: homens que buscam/lutam (ou pelo menos mantém esse discurso) para se afastar das amarras monogâmicas. Com a posição de “amor sem posse é possível, o amor é livre”, etc. Muito bonito, muito harmonioso. Só que pelo que pude perceber, é que eles acabam não mergulhando, e sim só molhando os pés.

Abrindo um parênteses imaginário pra explicar melhor: eu busco me relacionar de forma diferente e, usando de comparação ou pequena análise, as pessoas podem me enxergar no grupo de pessoas “livres”. Ou seja, estou disponível, assim como não vou encrencar com nada também. Então conheço essas pessoas, trocamos muitas ideias interessantes e na semana seguinte tomamos uma cerveja, nos beijamos, transamos. Aí isso se repete algumas vezes, mas as trocas de ideias vão sendo bem escassas, o interesse no outro menor ainda. Mas eu permaneço sendo alguém disponível para sexo.

Enquanto eu desenvolvo um grande apreço pela pessoa, por poder compartilhar com ela algumas trocas (ideais e corporais) – tendo ela como personagem vivo e presente no meu processo de desconstrução, o mesmo não acontece de forma recíproca.

Nos encontramos algumas vezes, – por acaso, na maioria delas -, um “oi, tudo bem?” esquisito, seguido por um beijo (beijo esse que não é a demonstração do carinho/apreço/afeto, e sim apenas um passo pra ter certeza de que o sexo ainda pode acontecer). Então esse beijo aceito significa que sim, o caminho continua aberto e sim, eu ainda faço parte desse universo dele. E aí, foi só um beijo, dois beijos e lá vou eu novamente sendo guiada pra um sexo completamente estranho, mas bem comum, disfarçado de liberdade – onde eu não me sinto nada segura.

Esses caras não vão criar vínculo nenhum. Não serão pessoas que falarão “oi, tudo bem?” realmente importando-se com isso, porque não se importam. Quer dizer, percebo que os homens chegam até mim demonstrando interesse, falando de relações livres e de como o mundo é bonito. E depois que dormimos juntos, o objetivo “livre” já foi alcançado e eles podem continuar vivendo normalmente e me colocando na lista de pessoas disponíveis. O que é isso senão continuar reproduzindo a ideia pessoa-produto? Ou, no caso, mulher-produto.

Aprofundando na minha situação enquanto mulher na posição sexo-livre: os homens não me consideram uma pessoa para somar, trocar. E sim pra fugir do usual. Inclusive muitas vezes percebo que na verdade eles estão até buscando um amor romântico e fantasiado com alguém, paralelamente, mas mantendo o discurso amor livre comigo pra ter sexo livre.
Quero dizer que é fácil gritar amor livre aos ventos. Qualquer um pode fazer isso. Mas o que eles estão fazendo de diferente? Se antes de questionarem a monogamia, eles também tinham várias parceiras sexuais, sem envolvimento, preocupação e cuidado – e ainda com respaldo pra isso? Não só respaldo, como também um grande prêmio por isso. Na verdade o que acontece então é a mesma coisa de sempre, mas com um nome diferente. Ou seja, sem desejo algum de realmente criar laços mais verdadeiros.

Não reduzo esses laços apenas às relações nesse campo, repensar nossas relações significa olhar pro que o capital impõe. Falta de tempo, competitividade, pressa, não ouvir o outro, não se importar com o outro. Falta de presença nas relações, de ser, de estar, de disponibilizar a sua existência. Só que romper com isso é um processo. Um processo a ser descoberto e construído de forma individual, mas com toda certeza coletivamente. Isso envolve diálogo, verdade e presença.

E eu não estou esperando um amor romântico de filme, que a pessoa se apaixone por mim loucamente. Pelo contrário. Eu luto pra que a gente se importe um com o outro, eu espero que o porteiro do meu prédio sinta-se amado quando eu pergunto se ele está bem, porque eu espero que ele esteja bem e espero que ele sinta-se confortável pra me pedir ajuda. Porque sim, as pessoas precisam de ajuda, precisam da relação com o outro de forma verdadeira (e o caos se sustenta justamente nesse afastamento, nesse não estar presente. E é contra isso que estamos, ou não?)

Eu até gosto de sexo-livre, quando a relação me deixa bem consciente do que tá acontecendo. Eu tenho tesão, gosto de dividir essa disponibilidade com alguém. Sexo é divertido, gostoso, saudável. Mas são pessoas. Ou seja, são pessoas com quem me relaciono. E pra mim, por ser mulher, preciso parar e pensar a cada momento sobre qual papel eu estou ocupando.

Resumindo: ter sexo livre da forma sacaneada como ele acontece, principalmente pras mulheres, não vai sanar minha sede por relações verdadeiras num mundo caótico. Não vai.

Relações livres, ou qualquer uma que se disponha a questionar a monogamia, não diz respeito a quantos parceiros sexuais você tem. E sim à forma como voce se relaciona.
Percebo que repensar isso – falando pessoalmente – significa transformar como eu me posiciono diante das outras pessoas. Refletir que situações de poder existem em toda relação, seja ela “amorosa” ou não. E que precisamos nos cuidar, ajudar o outro a se cuidar e cuidarmos juntos. Até poderia fazer considerações sobre a dificuldade da mulher (e de diferentes “ser mulher”) nessa desconstrução toda, mas prefiro deixar pra outro momento.

E é com muito auto-cuidado que escrevo. Esse texto começou com uma vontade de tornar explícito algo que me incomoda. Mas é um texto pra mim, antes de tudo.

Cuidando pra que não aconteça da forma que eu não gosto. Como proteção, auto-cuidado, por saber a minha posição.