arando estorvos

veio em grão de chuva em luz
arado de meu desaconchego
umidade descompacta junto
escorro

ninguém me encontra pois então
sou muitas
faço justa falta de foco
sem que a digam falha
agora que não acham nem a quem
dizê-la – levaria esforço

não perderiam tempo com estas
que me tornei ervas
muito mais
daninhas
eras

a frente daqui

O céu foi desabado!
Eu ouvi e não corri
Mastiguei cinco caroços de feijão
e dois de alho

Também não se mexeu o cílio seco do espantalho

Por ali tinha uma pomba
Mastigou dois de milho
E um de pão
Voou embora bem tardar o penúltimo trovão

Mas o céu se furou
Desceram aos cumes todos os homens
da moral dos bons costumes

A vizinha do lado cutucou a da frente
E agora o que será dessa gente
Ela nem respondeu

Desceu o anjo interino reclamando passagem
e cum resmungo qualquer falou o povo anda impedindo

Veio logo a mais harpada anunciação
Prometeu outra terra pra gente desocupada
trinta por cento do lucro refazeria a estrada
e com esforço trabalhado sanaria aflição
de uma vida desgraçada

Nenhum bicho deu um passo até a luz
Nenhum chapéu se moveu ao cumprimento
Todo punho se manteve em próprio piso
Voltou a ser pagão o cultivado paraíso

As roseiras das avós espinharam obstante estação:
daqui pra frente será tudo ocupação.

Quando a vida foi um mar de ressaca

Em um momento comecei a me sentir vez ou outra imersa dentro de um mar muito forte, – desses grandes, nervosos. eu, que passei a vida admirando águas, crescendo em volta de grandes lagoas, me deparando com rios suaves e poças de chuva de verão, estava considerando uma boa ideia essa dificuldade marítma. pensei, talvez, ser uma característica de uma nova fase que ainda não conhecia. uma mais séria, cheia, cheia de realidade, que me aguardava ali – observando meus passos de infância de conta-gotas. entusiasmada, enchi-me de orgulho pelo o que havia alcançado: afinal, sempre me fascinaram as ressacas. Ressacas que tudo levavam, cheias de autonomia e força, modificando a estrutura do lugar por onde passavam. quando elas vinham, eu as olhava imóvel, silenciada e constante. como se elas me continuassem. a vida foi assim.

de pouco pra cá, senti que uma delas resolveu mesmo me continuar, e é disso que queria falar pra gente. eu mergulhei totalmente nesse mar furioso – algumas pessoas até me diziam que essa deveria ser assim -, e ignorando meus conhecimentos de vida dentro d’água, entreguei-me a essa condição como algo novo. como poderia ter previsto, eu cansei. nadar em um mar de ressaca é desgastante e perigoso, sim, e insistir nesse nado requer um nível desnecessário de energia – que deve ser direcionado apenas pra esse fim. será que eu esqueci tudo o que tinha aprendido? vovó me dizia sempre que mar não tem cabelo. e então eu precisei encontrar um fôlego adormecido pelo desespero do afogamento, e utilizá-lo pra me deixar voltar à margem.

tentando acalmar minha mente no meio desse caos, fui resgatando o que já havia dentro de mim. eu sabia bem como sobreviver dentro do mar sem encostar os pés no fundo, mas no meio de tanta confusão, as coisas de perderam. fui me concentrando em não afundar, e aos poucos, fui compreendendo os métodos que fazia para conseguir manter-me respirando ali.

eu poderia aproveitar o movimento da ressaca e deixar que ela por si mesma lançasse meu corpo para a praia novamente. mas isso significava precisar de força suficiente para suportar as batidas majestosas em minha cabeça e intermináveis minutos sem respirar. e, caso conseguisse, provavelmente quando chegasse próximo a areia, já estaria quase definhando, a ponto de ser puxada novamente. não parecia uma boa ideia. eu poderia permanecer no fundo e nadar até longe, alcançando uma outra praia onde não houvesse ressaca. também seria muito esforço e, se eu não conseguisse no meio do caminho, acabaria retornando para onde comecei. a ressaca ali permanecia. não eram boas opções.

lembrando as palavras de vovó, pensei… ainda que o mar não tenha cabelo, eu ainda tenho. a opção pra aquilo tava em mim e só precisava buscá-la. nadei, nadei, nadei. nadei até muito distante da praia, onde o mar já fazia o trabalho de levar-me pra longe sem que eu me desgastasse tanto. ali, ainda que a corrente me fizesse viajar, não havia a violência das ondas. por um tempo permaneci, lembrei que podia boiar, e desse jeito, consegui ganhar tempo pra organizar as ideias e descansar um pouco. conclui que foi uma péssima ideia me lançar naquele mar e que agi sem dar importância aos meus próprios instintos – que sabiam bem que era uma ideia péssima. impulsionada por influências exteriores me confundi. por sorte, ainda havia um pouco de mim mesma a quem recorrer.

eu não precisava lutar contra aquela força do mar, que era maior que a minha naquele momento. eu podia focar em sobreviver com minha destreza. boiando, então, deixei a ressaca estar, sem intenção de bater de frente com ela. ela permanecia ali, bem próxima de mim e querendo me pegar de volta a qualquer momento. com o tempo, ela foi diminuindo e acalmando, e eu, ainda cansada, mas um pouco serena.

me adequando ao balanço, fui conseguindo me locomover sobre os vai-vens e resolver os imprevistos aceitando a presença deles. quando chovia era ruim, mas por mais ruim que fosse, não ia parar de chover apenas por ser um incômodo para mim naquele momento. até porque, a chuva ali incomodava, mas me foi necessária em outros tantos dias quando estive me alimentando na terra – e ao mundo inteiro estava sendo essencial. a cada vez que a ressaca aliviada, eu conseguia me aproximar da costa, até já conseguir enxergar as casas lá longe.

o mar ainda não tava totalmente manso, mas ali eu já sabia como fazer. me sentia um pouco mal por ter esquecido de me ouvir, mas satisfeita por estar voltando pelo caminho conhecido. próximo à beira ainda quebravam grandes ondas, mas eu lembrava como lidar com elas – eu sabia como furá-las, passando por baixo, sem deixar que elas esmagassem meu corpo. eu realmente não precisava enfrentar maior fúria daquelas águas. não era necessário que eu me submetesse àquilo, que deixasse meu corpo ser entregue e sofresse ralados ao me jogar na areia, chacoalhando consigo tudo ali, dentro da enorme espuma branca que enroscava-me pouco tempo antes. fui capaz de deixá-las um pouco mais quietas, então nesse momento eu já lembrava de como viver leve no mar. eu mergulhava por dentro das ondas antes que elas estourassem e, para cuidar de meu corpo cansado, aproveitada o ângulo exato do mergulho – onde eu pudesse sentir a massagem do estouro ainda sobre as costas.

eu já podia sentir o chão sob meus pés e com isso tinha certeza do retorno de minha lucidez. me senti mais orgulhosa do que quando dei aquele salto ingênuo. papai me disse algumas vezes que a gente tem que respeitar o mar, e que quando perdemos o medo é quando o pior acontece. me senti aliviada por ter considerado aquela ressaca algo muito maior do que poderia suportar durante minha vida. essa nova fase não precisa me socar na areia e me afundar em valas para ser real. eu sempre soube lidar com o mar e sempre soube a hora certa de entrar e de sair. perto da praia eu já sentia prazer e, apesar do cansaço e vontade de deitar em casa, optei por não ter pressa – o tempo passava desgovernado ali bem próximo de mim. naquele humor das ondas, elas já conseguiam me manipular sem me machucar e dessa forma eu me aproximava cada vez mais, vagarosamente. pude de novo voltar a reparar as gaivotas, os barulhos de vozes distantes e um batuque de alguma reunião festeira. provavelmente era fim de semana. eu nesse período me perdi no tempo, mas agora não sofria com isso.

quando vinha uma onda maior, eu me aproximava dela e a utilizava para me elevar: quando chegava ao seu ponto mais alto de água, conseguia ver pedaços de terra adiante, que antes não era capaz. essa sensação me extasiava e me fazia pensar em como essas ondas há um tempo atrás tinham potencial pra me elevar tão alto quanto tinham pra me desabar ao infinito.

assim fui indo, até que o mar se despediu, me colocando gentilmente na faixa molhada de areia, acariciando meus pés com sua renda branca que ia e vinha – nunca precisando escolher se queria só ir ou ficar.

 

Para DArVIda, com amor,

Júlia.

Sob falsas regalias

De todos os caminhos
terrestres,
direitas, esquerdas
nortes e nordestes;
largos, estreitos
noites e anoiteces
De todos os caminhos
terrestres
Nos destinaram apenas
a faixa
de pedestre.

O resto das vias,
pesadas, impróprias,
dilatadas, vazias
Espantoso, mas não rias:
A quem portar motor
que pre$te.

O resto das ruas,
cinzas, perdidas,
escuras, cruas
Aos homens ligeiros
de pés esquecidos
guiados pelos ponteiros.

Às rodas sem ritmo,
sem samba,
ciranda
ou melodia
que atropelam a calma
levando pra longe o que a gente
já esquecia.

Por tudo e tanto que o Estado
me escondia, me privava,
sob falsas regalias
Já não temia.
Basta dessa vida arredia.

Vizinho,

talvez o mundo lhe pareça pequeno
talvez essas calçadas te satisfaçam
e essas pessoas que passam
lhe sejam suficientes.
Mas não se espante
se eu te mostro o contrário:
esse mundo é gigante!

Talvez eu cante, dance, te encante
Amanheça com outro ser amante…
E você talvez não entenda
O quanto me importa ocupar esses cantos
E do pássaro o canto compartilhar.
Esse grito da cigarra me renasce
Mas a da outra rua também há de soar

Vizinho,
não me olhe assim
se escorro tua normalidade pelos dedos
se eu digo que é bonito ter pelos
E amar quem eu quiser.

Não me olhe assim
se bagunço tua moral branca
quando passo com um corpo preto.
Se eu te mostro que assim como você,
eu tenho peitos
e que com muitos me deito,
e de tão amores, não me importa o gênero.

Vizinho,
não se assuste demais
se eu te contar que suas drogas é que são pesadas
que seu refrigerante te mata
e o que nasce na mata, verde
é o que você proibindo maltrata.

Vizinho,
eu não entendo: por um beijo tanto alvoroço
se somos todos de carniosso
e não entendo, se tão semelhantes somos
ainda te incomoda
meu corpo, meus afetos
Me afetam tuas regras

Vizinho,
tem mulher gozando enquanto você reza
enquanto gasta água pra limpar sua calçada
que é pequena, mas enorme fica

diante da seca nordestina
que também nos destina.

Se espante agora, vizinho
e repara quão longo é esse caminho
Quem sabe, feri sua moral heterocristãbranca
mas sou ferida desde criança
E depois de tanto texto, falará:
“Ela não cansa!?”
E eu canso, te digo
Cansei, e é por isso
E meio livre assim, o mundo é mais bonito
é mais meu, e eu sou mais mundo

Desculpa por tanto tempo que passei mudo
Mas havia uma coisa.
Uma muda que permiti brotar em mim,
e que agora grita: MUDA!

Flor-essência

Da terra me floresci
Me vi, me senti, me surgi
Do cio brotante do chão
Do grão no vão dum ser
Tão frágil e farto
De opressão que assola
O solo e arranca a sola
Que daria piso ao sustento
E tento, sem razão, já sendo
Me sento no mundo,
de novo me sinto
Parte do todo, do novo, do outro
Eu, todos nós, desatando e refazendo nós
Soltáveis de tão laços
E sem passos como aço
Que não ocupam os espaços…
Semear os frutos impuros de reais
E que a moeda real, tão impura
Extinta seja; e veja, utopia?
Que seria, lindo
O mundo com pés descalços
Com belezas despidas
E alçadas de amor
Que do chão brotará em cada ser
Tão forte e tão tudo,
Tão outro e tão desnudo.
Mudo, como o giro constante
E bebo do suco de toda roda que surge
Ressurjo e me sujo de vida,
Me sangro do sangue da terra
Que avermelha a existência
E urge por nossa florescência.