manda rezende

Foi você o amor vindo das águas escorridas do céu de hoje madrugada
em que consegui pouco tapar os olhos
pouco ainda do que naquela foto relembrada por ti em que eu os tapava com jasmim
Cheirando botão amarelo a solidão contigo partilhada
dividindo a última escassa garfada
do feijão de barro mais desejado do nordeste que já era o país inteiro há três noites
Ou será minas gerais?
Hoje como você disse foi dia seu
quando o tempo virava e explodia na minha cara a espumosa que vinha esbarrando a outra que ja partia atrás
Na hora em que as cigarras calam
eu nadando com siris e raios.

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salgo

o primeiro orgasmo
de dois mil e quinze
eu me dei e dei
de volta à água
que me expandiu
em impossíveis minutos
eu boiei enquanto
minha pele salgava
quando o sol tocou
o mar eu ardi junto
nesse momento era
queimada todo o
mundo e não houve
um olho sequer que
foi capaz de mover
minha mão
às seis da tarde
meu gozo era peixe
correndo na maré
pela primeira vez
molhou sem precisar
ser secado

Dois mil quilômetros a dedo

Quando é que uma vivência em nós assenta
e se revira em marca
de quem trás memória atenta?
De dez dedos braçais só restou em um
três únicos sujinhos azuis
do esmalte usado pra registrar a lembrança
que agora o mindinho induz
Mas apesar de pequena a mancha,
tem essa cor perfeita e viva
como se eu ainda estivesse lá
ou o lá fosse encurtado aqui
Com meu menor dedo puxando mil e quinhentos
quilômetros de estrada
me ensinando o quanto ele é importante-
ao oposto que todo mundo pensava
Talvez seja justo isso:
sempre a mão de alguém movendo o chão que passa
Como uma esteira sob as rodas do caminhão
Do jeito que Francisco me falou
na verdade não é a gente que sai do lugar
E assim Chico seguiu certo
tendo sempre alguém que puxa
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Eu roo as unhas
mas não a do mindinho
porque ela me assegura
segurando a calma
daquele pedaço de caminho
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Por exemplo agora vem chegando pela janela encortinada
a humidez que chuviscava
Aracaju
durante nossa breve estada
A água era tímida e felizmente,
as mulheres que amavam mulheres, não tanto
E aqui ela vem entrando com ar de quem escapou de casa
deixando alguém esperando
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A roze vem anunciando a revolta da Asa Branca
que já havia voltado quando eu pisava Areal
E mamãe entrou pela porta junto com a saudade de colo
de quando eu olhava o milharal
Que, não fosse o meu nascer em Santo Antônio
e umas duas paneladas,
Nem me era assim tão familiar
Além também da promessa com Jéssica
por nunca ter comido milho
Combinado esse que já parece a mais lonjura das milhas
que Cachoeira na Bahia
Onde revivi a nostalgia do bem
que a jovem paixão fazia
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Minha falta de cuidado
com as plantas que botei aqui
faz elas conversarem com os tomates que semeei lá
pensando na corrente do rio Paraguaçu
e em me espalhar nas frestas das lajotinhas ladeirantes
E me faz notar que os tomates desse meu quintal
que achava desamparados
colorem meu convívio com flores amarelo
e frutos que darei pra além do carnaval
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Tem os presentes com a hora certa
celebrantes do momento
por exemplo
os que fiz e aqui permaneceram
com a certeza de que não serão mais dados
fincando o sentido em minutos do passado
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A rua que nasci
sopra sempre os meus pés
quando deito desamparada
no sofá novo da sala
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Eu volto pra poder voltar praí

18.9.16
em homenagens aos íntimos e aos que caminharam junto nas margens

e desde então ninguém

Na beira da mesa o copo dágua não é mais este
caso lhe falte o líquido
o amor do sofá na sala vira enfeite
quando escassas as perguntas ficam
tal como qualquer margarida sem abelha
e até a sobre-pele morta da palma infantil
furadinha curiosa com alfinete
que não doía
renovou o caguete
a falta de sentido ficou
nas coisas pequeninas
tipo saúde em pote de margarina
o novo discurso feio da antiga colega Marina
e de homenagem essa rima mais feia ainda
a ração do cachorro nunca foi mais a mesma depois que ele sumiu
desde então ninguém sabe no que ela se transformou
aqueles bilhetes grudados na parede e na geladeira
exibem histórias de personagens que existem só lá
a saudade de bethânia que fazia barulheira
acordando aos pés o vizinho
também existe só lá
e desde então ninguém sabe onde é

Em 2015

Uma lágrima escorregou do meu olho esquerdo
Trilhando um caminho novo
Escalou meu nariz e mergulhou em meu olho direito
Alguns meses depois ela novamente fez-se gota e, dessa vez
Deslizou do olho direito e se escondeu no meu ouvido.
Após essas suas viagens, dentre outras não mencionadas,
Tomou-me um pico de total apatia e mal pude recordar do que impulsionava sua partida
Então, espantada, pensei:
Não.