Majestosa

Amada, acalma-te
Não poderás fazer análise.

política

por seres muito você,
não vês?
não fala tua boca
sobre escolha
tampouco o falso
arbítrio
não fala tua palavra
da vontade
então cala-te

antológico que lindo fica
quadril teu em cama minha
a ti, filó
sou fio que tece
teu remendo espetáculo

Uma coisa não aprendo
que tu fazes maestria
não impede a elegia
tua mão
virar café

Túmulo

Imagino estiver-me morta estiver ainda em moda descobrir palavra póstuma; estremeço o encaixote dos meus as; vezes que disse flor cismariam desabrochar; Quem me testemunhara em corpo inventaria motivo do meu vestir monocromático: diagnóstico de loucura monótonica; e ninguém mencionaria minha desabilidade de expressar estilo muito menos não ser isso o que me importava; nem também à Rosinha ser namorada; após doze anos quase falecida enfim ida; Eu me reviraria de tanto túmulo:

Imagino tivéssemos mortas aquele dia no carpete: noticiariam suicídio pelos amados homens perdidos; você se lembra bem que conversávamos enérgicas depois de feito e comido o macarrão quando demos conta do gás vazado; de cúmplices mágicas seríamos desfeitas apaixonadas trágicas.

Imagino tivesse ontem o cara me matado com aquela risada diminuta olhando a marca de minha sentada molhada; pensava o quê? pingou de tanto medo ou de não saber se controlar; ou vazou nojenta. a pior das hipóteses e não duvidada: teria eu morrido de clandestina em método criminoso. O dito não matou-me graças à chuva bem tomada.

Imagino tivesse morrido hoje mesmo; após encontrariam hemorragias na colcha do sofá dizeriam que foi o quê dessa vez? maluquice de minha parte ou de novo os mesmos homens de antes; que eu haveria reclamado qualquer coisa ideológica dando murro em ponta de faca daquele meu jeito insistente e me arrependido esfaqueando o mesmo murro; eu morragia mesmo mas seria outra mentira que não daria conta de que nesta lua cheia eu sangrei só pernas e panos.

salgo

o primeiro orgasmo
de dois mil e quinze
eu me dei e dei
de volta à água
que me expandiu
em impossíveis minutos
eu boiei enquanto
minha pele salgava
quando o sol tocou
o mar eu ardi junto
nesse momento era
queimada todo o
mundo e não houve
um olho sequer que
foi capaz de mover
minha mão
às seis da tarde
meu gozo era peixe
correndo na maré
pela primeira vez
molhou sem precisar
ser secado

Ali inscrito

A ponta dos dedos
ali
onde o toque se infinita
onde a carne se mistura
onde o contorno carece textura
ali
onde se instiga
onde se interessa
onde o tesão perfura
Quando na saudade escreverá o outro
com essas mãos dele contaminadas
logo ele outro se fará perto
na folha de papel mesa ou chão
onde ele for escrito
inscrito já estava em suas palmas
Se reescreve o outro
eternizado no tato
transforma-o em qualquer texto
formato
parece vontade de letra
virar pele
Cuidado no engano
palavra também fere

Agente

Tu fora de mim
Eu de ti
A gente
Não
se adentra
Muito menos
Se atenta
Eu
Te julgo
Dis
.
.
.
Tante
E tu
Me
Julgas
Dis.. -~..per.,;sa
Eu culpo
Seu CELULAR
e você
Aminhapressa
A verdade:
>>>o dispositivo individual é o que menos interessa<<<
Essa
Qu. …..i..lo…me…trag. …em abis
.
.
.
.
mal
(Dentro) de nós
Já foi impressa
Eu )fora( de ti
Eu ]fora [ de
Mim
Tu
>fora < de nós
E de
sci
.
.

EM FALTA, GIRAUTA

Agora eu choro num poema
sobre como eles agem
e não se importam se é problema.

Como eles não entendem um abraço
cada contato corporal relembrar fisicamente
o poder ereto
e tudo que passo:

estou à disposição e serventia
se reclamo – tudo que faço –
“que rebeldia!”

Roçar já não mais é cuidar da terra
quem ainda conheceria tal verbo,
podendo satisfazer-se até quando eu não queria?
“eu achei que podia!”

Aos 14, o professor que 42 fazia,
me chamava à sua casa pra ensinar poesia

Pois que minha carne aprendeu no dia-a -dia:

Apagavam minha pulsação que atentava ao errado
Afinal, como dizia, não parecia tão nova
– e agora, quem sabe, não pareço tão invadida –
Se demonstro, ele reprova.

Sempre sabem o que é melhor pra mim
Me leem melhor que eu mesma.
Os sinais do meu desconforto
[ignorados
estando pressionada pelo seu corpo envolto

Há quem disse que sou sutil
Mas lembro: mesmo falando, chorando ou imóvel
ele sempre me engoliu.
(eles), você também
(moço) que passa os olhos sobre essas inúteis palavras
femininas.
Cuidemo-nos, meninas.

Obrigada

O olho que pro meu não olha nem nada vê
Logo procura pedaço onde se entreter
Me fita: é pra ver ou pra comer?
Permaneço enquanto desliga a tevê

O olho que pro meu não olha, nada vê.

Pedaço encontrado
O ouvido que pra mim não olha nada entende.
Quando capaz de pedir me solta
Na verdade já muito passou da hora.
Quando preciso ir embora, fujo, me sento
Aguardo em seu gozo que demora.
O líquido sem culpa que dele jorra, como difere…
Em mim, a mesma cicatriz que chora.

Já lá fora, busco droga que traga minha calma
Um outro se faz cavalheiro:
eu, com minha dor estampada nem sussurro, mas ouço um repreensivo “de nada”.
Me fez o favor de lembrar como sou obrigada.

Espaço-me

O controle da vida. A cidade abriga ou engole?
Dou um gole na minha cerveja.
Gelada. Desconhecida origem.
Pra quê saber?

Alívio.
Minutos. Memórias. A cidade abriga ou engole?
Dou mais um gole na minha cerveja.
Uma hora e vin… Lembro. A cidade engole.

Dou mais um gole na cerveja
Que me abriga.
Mas que nem é minha.
E eu sei.
O que me obriga
a esquecer
Que sou engolido
E o que é
eu não sei.
Mas existe, sinto.

Dou mais um gole
Para que isso seja extinto.

Mas logo lembro
De minha condição fêmea
O Humano ao lado pressinto.
Engolida, corrijo-me.
Recolho-me.

Eu fujo da gula da cidade ou fujo do Humano?
Agora já não sei:
Esse copo de cerveja me acalma
Ou vai ajudá-Lo a levar minha alma?
Logo eu que nem nisso acredito.

Em quê acredito?
Quando dito a rua é minha
Sei que não é.
Minto?

Isso funciona como a cerveja, reflito.

Mas logo tornam a me relembrar
Que o espaço eu não habito.

Cercam-me, controlam-me.
A autonomia, ainda que tente,
Entre feridas e mortais cortes
É inexistente.

Com o copo de cerveja na mão,
Ainda cheio
E ao mesmo tempo vazio de sentido
Sem espaço para enchê-lo de importância,

Penso,
com a mínima autonomia que me continua:
O que há em comum entre eu e a rua?

Ela, que pra mim é tão insegura.
Controlada. Cercada.
É visível, somos parecidas.
Sinto que mal não a faço
Entretanto, ela me fere
Não importa a rota que traço.

O que me engole?
A cidade ou Ele?
Humano.
Me privam da cidade.
Me privam de ser Humano.
E o Humano se engole
Pela própria gula
Despercebida.
Mas eu…ai.

Olho novamente para a cerveja.
O copo cheio e ao mesmo tempo vazio.
Sem espaço para enchê-lo de importância.
A rua cheia e ao mesmo tempo vazia
Sem espaço para enchê-la de vida.
Eu cheia e ao mesmo tempo vazia,
Sem espaço para exercer minha insignificância.
Que desde a infância aprendi.

Vida que jazia
Assim que nascia.
E mesmo estando ali,
Sabia que era intrometida
Ou melhor,
Era vida
Vendida.

Respiro.
Temos tanto em comum.

Penso.
Com a mínima autonomia que me resta.
Logo eu que nem nela acredito.

A rua deveria ser conjugável,
O espaço público
E a cidade habitável.
Vejo lutas por isso.

As vozes protestam e ocupam.
Essas vozes que engolem a minha.
Mas ainda que Humano eu não seja,
– Eu, fêmea –
Berro.

Impulso que urge
Resgatando cinzas de poder
Interno.
Eu não posso me conjugar,
Mas essas vozes insistem em fazer isso
No meu lugar.
Meu?

O que há em comum entre eu e o espaço público?
Sofremos privação de ser,
E dizem que somos livres.
Mas de jeito único,
Pública somente eu continuo.

Violentada e dizem que
Sinto prazer.
Assim como o espaço,
Transformam-me em lazer.

Um lazer privado, com donos
Posses.
Copo cheio.

Por que o espaço público então me engole?
Inimigos distintos, mas ao mesmo tempo nem tanto
Tampo os olhos e respiro, ou ao menos tento.
Ainda que isso me enrole,

Sei que existe.
Sei que existo.
Essa concretude presente
que já não me ilude.

Forças de origens desconhecidas.
Que na verdade até conheço.

Mas de que me importa saber,
Quando sobreviver é começo?
Quando ser
é artigo de luxo e apreço.

Então apareço.
Ainda que nua
Carne
Disponível
Fêmea.
As cinzas serão reacendidas.
Há de ser meu o fogo
Que ainda me queima.
Espaço-me.