Lugar de fala cansada e a exclusividade das autoras invisíveis

As mulheres artistas no Brasil continuam vivendo as específicas adversidades de produção e circulação e tentam – com mais força a partir de 2014 – burlar o destino da invisibilidade, agindo em experimentações de arranjos cooperativos, resgate de memória, espaços e editais inclusivos, etc. É preciso, apesar dos bons olhos com que se lê essa informação, que se perceba o perigo que vem sendo cada vez menos iminente e mais atual.

Quando o movimento feminista estourou aqui, as redes se encheram de palavras e formulações novas a serem aprendidas, uma delícia se deparar com uma gaveta vocabular que não dissesse respeito aos como sempre, homens. Repetia-se, repetia-se, repetia-se e uma sílaba reproduzida de forma diferente ganhava a dimensão atenta ao possível erro. Um dever absoluto de não falhar no discurso manteve as formulações bem sólidas e não passageiras – pela seriedade que se deu ao assunto. Porém, o aprofundamento massivo das palavras não aconteceu conforme se passou o tempo, sendo igualmente absolutas as condutas a serem seguidas, quase como um manual da libertação, enrijecido e empobrecido de prática efetiva. Antes, em cópia-cola, agora em colagens sobrepostas.

O anterior “você não tem lugar de fala” se tornou “precisamos de mulheres ocupando esses espaços pois é importante se falar dessas problemáticas”; delegando assim às mulheres a função mais óbvia e urgente, de falar sobre isso, de ser mulher e fazer “arte de mulher” – antes delicadas, agora temáticas. Pois, se apenas as mulheres podem e devem abordar, apenas a elas resta o trabalho de fazê-lo. E se, como de costume, não houver presença feminina ou houver pouca, sequer a discussão é feita.

Surgem então espaços exclusivos para produções de mulheres organizados por mulheres, e não é surpresa que grande parte das produções femininas atuais consigam circular apenas nestes meios e para o mesmo nicho presenciar. Afinal, é o espaço destinado e mais adequado para se assistir sobre e, quanto mais espaços destes são criados, menor é o interesse de abrigarem essas mulheres nos espaços tradicionais de circulação. Cria-se um mercado à parte,  que não dá conta da pluralidade do conteúdo e ignora o problema do mercado geral em si. Que além de ser uma questão de dominância masculina, contra qual deve-se continuar questionando na prática, é também um modo completamente nocivo ao fazer artístico no país – concentrando verba em mãos específicas, minando as possibilidades de circulação de obras, tornando as relações hierárquicas e grupais e as produções rasas, feitas apenas para repetição de fórmulas do sucesso garantido.

Na medida em que as mulheres se realocam, na tentativa de criar um mercado parecido e/ou de se sobressaírem a ponto de futuramente alcançarem lugares nos circuitos tradicionais, tais circuitos apenas ganham com uma crítica a menos – e cumprem a cota de produção feminina, normalmente com alguma obra comercial que aborde o tema, ficando famosa e aclamada pelo feito (e a cota é conveniente, uma vez que o tema se tornou produto lucrativo). É necessário que se critique: as produções que estão rodando não têm atravessado fronteiras além de algumas geográficas. Tem-se reverenciado qualquer obra dita “contém esta temática” que seja impulsionada pelo mercado, nitidamente as mais comerciais, as que menos possuem liberdade criativa e algo de fato a ser dito – o que também é nítido ao se analisar a exaltação de obras internacionais pelo mesmo motivo. Além de individualizar a conquista como “autora empoderada”, pela questão da representatividade identitária exaltam-se produções medianas apenas por conterem o assunto, independente de ser feito de forma banal, pouco criativa ou afins. É o feminino “palatável”, com o qual as reconhecidas grandes mídias também já fazem lucro.

Perdidas pelos espaços não-oficiais dedicados para mulheres, tentam sobreviver as obras não-mercadológicas, as que se realizam de maneira distinta e trazem questionamentos mais severos e relevantes. Obras estas que também não circulam nos espaços não-oficiais amplos (sem distinção de “minoria”), uma vez que acabam sendo consideradas temáticas demais ou não cabendo em certas situações, com a desculpa de que “são ótimas, mas talvez um evento só para elas seria melhor”. Ou seja, evento que só atrai um tipo de público específico, não gerando assim, incômodo algum. Tudo vira entretenimento.

É preciso que mulheres ocupem os espaços, porém não apenas para falar sobre questões do ser-mulher. Simplesmente precisam porque têm o que falar sobre qualquer coisa e a vida se ocorre além. A mesma tecla batida de que apenas elas podem mencionar seus problemas enquanto grupo está se esgotando cada vez mais, continua colocando-as em segregação e como peças chaves, novamente, para manutenção desse tipo de política-artística. Repetir o trabalho das falas necessárias por saber que ninguém mais fará: o peso da responsabilidade tem que ser retirado das costas delas para que ganhem corpo possível, para que possam falar sobre qualquer coisa, produzir história, política, arte, estética – e não se fixem obrigatoriamente no discurso designado. A responsabilidade é social, as questões femininas devem ser abordadas e brigadas por todos. Todos estes que continuam avançando nos discursos enquanto as mulheres estão com suas falas “lugarificadas”.

 

lugar de falar

Sobre o desamor do homem e sinonimo de ser humano de cu é rola

Tudo começou a virar prática quando ganhei minha primeira boneca, por volta dos 3 anos. Assim como minhas amigas, nessa idade eu também já aprendia a cuidar de alguém que dependia de mim. Empurrava carrinho, dava banho, trocava roupa, cuidava do cabelo. Quando estava boa nisso e alcancei o instinto materno, pude avançar de nível, então vieram as panelinhas.

Meu irmão era pouco mais novo que eu e, assim como seus amigos, brincava com uns carrinhos – aprendia sobre peças, velocidade, espacialidade. Ele também ganhava uns brinquedos de montar e criar objetos. Não tenho o que reclamar dos meus pais, eles me deixavam brincar de tudo, mas curiosamente algo já estava definido. Quando cresci mais um pouquinho ganhei um Tamagoshi – aquele bichinho virtual que precisava ser cuidado-, que a maioria das meninas tinha (e os meninos não curtiam).

Eu adorava ler! Tinha em casa uns livrinhos, e lembro das histórias de princesas. Eram moças muito jovens que passavam a vida inteira se dedicando a serem boas pretendentes: aprendiam a cozinhar, a limpar a casa, cuidar dos bichinhos, e principalmente aprendiam a estarem lindas, sorridentes e limpas independente do que fizessem. Após tal processo, passavam a esperar o príncipe que as escolhessem. Iam aos bailes mostrarem-se disponíveis e ficavam ociosas nessa espera. Passavam dias se arrumando e competiam com suas amigas. Sobre o príncipe, sua única tarefa era escolhê-la. Ela devia ser muito incrível e ser aprovada por todos, e não devia cometer a afronta de negar o sortudo pedido de casamento. As que negavam acabavam sendo aquelas tias reclamonas e recalcadas, as velhas dos gatos, as bruxas vilãs solteiras com verruga no nariz. Ou seja, malvadas ou inúteis.

Eram contos de fadas, mas na verdade não tanto. A história das mulheres que morreram na caça às bruxas da Inquisição, ou que foram internadas em manicômios, é basicamente a mesma. As que não se adaptavam à tarefa de servidão doméstica – que trás consigo uma infinitude de entrelinhas -, eram perseguidas, sendo condenadas à morte ou a loucura. Nessa época bem familiar a de hoje, qualquer manifestação de sentimento feminino era considerado histeria – as mulheres deviam estar dispostas a sexo com homens a qualquer momento, à atenderem suas necessidades, a não questionarem. Era sintoma de distúrbio psicológico manifestar considerações próprias, qualquer coisa a respeito de si mesma – e para tratar isso criaram o vibrador.

Quando entrei na escola, os livros diziam coisas como “o Homem está no topo da cadeia alimentar”, “o Homem descobriu que a Terra era redonda”. Então eu entendi que homem era sinônimo de ser humano. Ao mesmo tempo, eu ouvia minha avó dizendo que todo homem é igual. Que homem não presta. Que eu não deveria namorar tão cedo. Vovó era bem bacana, mas certamente aquela palavra que ela usava não significava seres humanos, afinal, por mais bacana que fosse, ela não cogitaria falar sobre namorar mulheres também. Então minha cabeça passou a achar que as avós eram moralistas com esse papo de homens não prestarem, simplesmente pra que a gente não namorasse mesmo. Eis aqui o primeiro recado: escutem suas avós.

E começa aqui nosso choque de realidade. Não é atoa que nossas histórias atuais pareçam tanto com a dos contos de fadas que líamos quando crianças; nem com o passado da Inquisição. Não é atoa que nossa vivência adulta se pareça tanto com aquela que nos foi ensinada quando tinhamos 3 anos. Certamente essa educação precoce não foi por acaso: a dificuldade tem de ser aprendida desde muito cedo para que seja assimilada com perfeição.

Obviamente eu contrariei e logo comecei a namorar meninos. Não demorou pra que, vivendo no universo masculino, eu passasse a achar bobas todas as coisas que saíssem de mim ou fossem minhas – gostos, objetos, interesses, vontades, filmes, passeios, modos de falar, de sentar, roupas, etc. Os meninos endossavam bem o coro de “ah mulherzinha”, quando algum colega parecia feminino – leia-se demonstrar sentimentos. Algumas vezes ele simplesmente dizia estar gostando da colega de turma. Alguns meninos na escola me perseguiam e me seguravam forte, puxavam meu cabelo ou me cuspiam água. As professoram me explicavam que eles faziam isso porque, na verdade, gostavam de mim.

Fui crescendo e as experiências foram evoluindo pra visitas em casa, namoro fixo, convivência cotidiana íntima. Eu imaginava que aqueles rapazes com quem compartilhava a vida fossem meus melhores amigos. E eu nunca entendia porque toda semana eu acabava sentindo algo esquisito que chamo de frustração confusa. Tal frustração surgia toda vez que eu precisava me abrir ou expor algum sentimento e o namorado ou não entendia, ou procurava algo melhor pra fazermos. Muitas vezes eles faziam piadinhas, dizendo que eu era chorona, e me chamavam pra tomar sorvete. Quando eu já não podia mais trocar minha necessidade por sorvete e insistia em falar, eles faziam uma expressão de tédio. Não sabiam o que falar, achavam chato, e chegavam sempre ao momento de tentar transar quando estavam exaustos de ouvir aquilo. E se eu não quisesse, eles reclamavam sutilmente sobre essa minha reação. Eu me sentia mal por não satisfazê-los e por sentir essas coisas. Parece que os tempos não mudaram.

Nos programas de comédia na televisão, aprendi que as mulheres são as rainhas das “DR’s”. O que nós mais gostamos de fazer é discutir relação. O curioso é que depois descobri que chamam de DR qualquer conversa onde se exponha sentimentos mais profundos, que fale sobre si e sobre o outro – que fale sobre a relação. E todas as vezes que imaginei uma conversa onde se abrisse pra isso, foi bonito! Só na imaginação. Os homens não aprenderam o que é isso e lidam como se fosse uma afronta. Eles mudam o humor, criam uma aura de briguinha e te culpam por querer levantar questões sempre. Comigo não foi diferente. Perdi a conta de quantas vezes deitei dizendo que estava meio triste por conta de sua reação e o companheiro dormiu. Ou quis transar.

Não demorou pra que eu fosse chamada de histérica – e olha que nunca fui exaltada, apesar de ter mil motivos pra ter sido. Fui me entendendo como aquilo que os homens me chamavam: cheia de questões, problemática, intensa, racional demais. É, fui culpada diversas vezes por racionalizar demais as relações. Me sentia queimada na fogueira toda vez que me abria. Foi então que entrei num ciclo vicioso de relacionamentos abusivos, onde eu me anulava todo o tempo pra relevar minhas pendências em prol do bem estar do homem. Porque, se meu próprio namorado não era capaz de lidar com elas e me ouvir, eu realmente devia estar sendo exagerada. Diziam pra eu ser mais madura e para de jogar pesos sobre eles. Comecei esse processo de crescimento, mas os diálogos mentais não cessaram. Eu conversava com eles mentalmente e sempre era incrível. Era maduro, era carinhoso e acalentava a alma pelo compartilhamento de amizade e dedicação mútua. Não tinha peso nem culpa, nem expectativa elevada – tinha apenas compreensão.

Eu não conseguia entender isso, apesar de me esforçar muito – como sempre. Não entendia como pra mim era tão leve e quando expunha pra eles era tão pesado. Eles diziam que era a forma que eu falava, meio grosseira, cheia de cobranças. Então eu modifiquei totalmente o modo de abordagem. Fiz várias vezes, vários testes diferentes. Passei até a tentar não falar mais nada. Pra mim isso era bem ruim, então passei a falar com muita delicadeza e carinho. Nada mudou, e eles diziam que eu tinha que aprender a ceder pra relação funcionar. Nada mudou, mas a culpa continuava sendo minha. Por que na minha cabeça tudo funcionava tão bem?

Fui procurar ajuda na terapia, fiz meditação, acupuntura. Pra curar minha histeria o vibrador foi insuficiente, mas tentei outros meios. Me tornei uma pessoa muito calma, porém cheia de culpas que não sabia como eram minhas – mas eram. Mas a vontade de conversar não passou. Achei que estava louca ou tinha depressão. Na terapia eu falava “doar” e minha terapeuta dizia que minha boca pronunciava “doer”. Namorar homens é complicado, por conta de toda criação desigual já mencionada: você acaba vivenciando milhões de machismos, silenciamentos e violências sutis ou não. E isso deve ser conversado, assim como qualquer sentimento bom também deve ser conversado – e é essa parte boa a única parte que eles aceitam ouvir. Qualquer coisa dita fora disso, por mais calma e “namoral” possível, era o cúmulo da minha incapacidade de relevar as coisas. O que meus namorados não entendiam é que se eu estava disposta a namorá-los, eu estava automaticamente disposta a relevar um monte de coisas para que isso fosse possível. Começando pelo fato deles serem homens! Mas eles não podiam participar do processo de melhora de hábitos próprios. Toda vez que mencionava algo, era como se eu estivesse fazendo deles um monstro. Eu. Fazendo deles.

Quanto mais eu conversava e convivia com amigas que também namoravam homens, mais eu via o quanto essa história era repetitiva. O quanto todas nós em algum momento nos víamos inteiramente dedicadas sozinhas a manutenção do relacionamento, uma vez que os homens se mantinham incapazes de lidar até com seus próprios erros. Mas tinham facilidade em apontar os nossos. E sim, precisamos falar sobre exploração afetiva. Nós realmente fomos criadas pra servidão, pra disponibilidade e dedicação extrema – o padrão desses relacionamentos é você ser o colo do homem todo o tempo e quando é você quem precisa, se depara com a pontinha de uma perna. São eles os distantes, os que não se preocupam com saúde sexual, os que não gostam de camisinha, os que não dividem o custo do anticoncepcional, os que não te ajudam a lidar com os efeitos colaterais da pílula, os que não gostam de “tretas”. Somos nós mulheres que nos descabelamos pra achar as soluções de tudo, e vamos procurar ajuda com outras amigas – porque você já foi tão chata com ele, que ele deu ultimatos sobre continuar a relação.

Crescemos cuidando de outros seres enquanto esses namorados cresceram desmontando carrinhos. Enquanto passamos a vida sendo afogadas num sonho de casamento e final feliz, os homens estavam sonhando com qualquer coisa. Esse padrão romântico pode parecer coincidência, mas definitivamente não é. Lembro quando meu irmão brincava de casinha comigo. Eu usava uma barbie, e ele queria usar um boneco de um tamanho muito menor pra ser meu marido. Eu brigava com ele e não deixava, dizia pra usar o boneco do tamanho da minha. E não era falta de imaginação: era apenas pelo fato de que o matrimônio foi empurrado goela abaixo das mulheres. E aquilo era importante demais pra mim pra que ele não levasse a sério.

Outra parte do padrão é a destruidora capacidade que as mulheres tem de negligenciar sua própria vida afim do relacionamento. Tanto eu quanto minhas amigas acabamos com frequência faltando aulas, desmarcando encontros e compromissos diversos para podermos cuidar e/ou ficar junto com o companheiro. E o oposto não acontece. Os homens, naturalmente, continuam com seus planos, seus estudos e empregos. Há quem diga que isso é um dom, que as mulheres são os seres iluminados; citam até o espírito materno. Fizeram aquelas frases “por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. De cu é rola! Esse anulamento feminino não é bonito. Ele é consequência de colocarem o casamento como prioridade na vida das mulheres e, como os tempos mudaram, você pode substituir “casamento” por “namorado”, “boy”, “pênis”, por exemplo.

A sociedade só valida a existência feminina quando ela arruma um homem. E aí a vovó se contradiz e fala “segura esse macho!”. Os contos de fadas se repetem e acionamos tudo o que aprendemos para conseguir segurá-lo. Me lembro de algumas vezes que eu estava tranquila sozinha e algum homem me pediu em namoro. Diversas vezes não me apeteceu, mas eu aceitei. Outras tantas eu dei seriedade demais a algo que pra mim nem era tão importante – e isso não é sobre irresponsabilidade afetiva, e sim sobre apenas não desejar estar com tal pessoa. Definitivamente eu amo estar sozinha, mas por um motivo que luto contra, meu pensamento sempre está em alguém. Ainda que nem estejamos juntos, parece que eu e minhas amigas vivemos numa busca incansável por uma completude que não nos disseram que está em nós mesmas. Não, isso não é por acaso.

E essa busca é muito triste, porque quando falhamos numa relação é como se tivéssemos falhado enquanto pessoas. Como se fossemos ruins. E realmente sentimos isso, já que é a nossa principal função manter um namoro funcionando. Quando o rapaz termina sentimos um ego ferido que difere muito ao que o homem sente. Enquanto competimos com nossas amigas quem arranja o melhor namorado – mesmo inconscientemente-, esses namorados estão conversando entre eles sobre suas aquisições materiais, intelectuais, degustativas. Os homens foram criados aprendendo posses, lidando com objetos. Quando um rapaz de quem gostamos não nos quer, nos sentimos ruins, feias, desinteressantes e desistimos. Mas quando acontece o oposto, funciona como se tivessemos ativado o botão de insistência deles. Como se eles não conseguissem lidar com esse objeto que não podem ter.

Assim como nos livrinhos infantis, são os homens que decidem quem, quando e onde começar um relacionamento. As mulheres só devem permanecer na vitrine esperando e, se alguma resolve pedir um rapaz em namoro, é chamada de ousada demais ou desesperada pra casar. Não precisamos nem pedir em namoro: estar ficando com um cara e dizer “vamos nos ver de novo?”, ou começar qualquer assunto sobre nossos sentimementos já é o bastante para ser aquele peso gigante inaceitável. Como se realmente quiséssemos namorar todos os homens com quem ficamos. Na maioria das vezes só queremos ter um papo menos superficial mesmo.

Cansada de ser taxada de apressada, tratei de aprender que pra dar certo e ser escolhida, tenho que seguir a lógica dos meninos que me batiam quando gostavam de mim: fingir que não estou interessada! Ou melhor, ser indiferente e cruel. O típico comportamento masculino é esconder sentimentos e ser negligente. Sumir sem dar notícia, se calar sem explicar, aparecer só quando é conveniente, parecer ótimo o tempo todo, fingir que não sente nada. Os filmes de sessão da tarde ensinam bem sobre como as mulheres não devem ligar no dia seguinte ao encontro. Ser indiferente mesmo. É sério que vamos criar relações com tais bases?

Quanto mais moderninhas pessoas com quem ando, isso fica mais explícito. Pra ser mais livre eu preciso não ligar pra nada, estar ok com tudo sempre. Cumprimentar todos sorrindo e aceitar as propostas de beijo, sexo livre e relacionamentos efêmeros que pouco se importam com minha existência. Mas a verdade é que independente do grupo, vai ser assim – com a diferença perigosa de que no grupo dos desconstruídos isso é disfarçado de liberdade. Mas essa liberdade não soa muito masculina? Eu definitivamente não almejo ser desumana como um homem, embora saiba que a criação das mulheres também me fez doentia em vários aspectos. Mas continuam sendo nós, eu, minhas amigas, minha mãe, minha avó e as mulheres em volta, as pessoas que cuidam e se preocupam de verdade com o sentimento dos outros. Somos nós que nunca dormimos quando alguém ao nosso lado diz que está triste. Somos nós que somos transparentes para que o outro não fique inseguro. Eu não desejo destruir isso em mim para ser capaz de me relacionar com outros seres, porque a consideração e cuidado é a base pra qualquer afetividade.

Há quem diga que os homens aprendem a amar quando viram pais. Eu ainda não acredito nisso, uma vez que nem essa tarefa – cuidar da criança de verdade – é considerada deles. Gastaram dinheiro me dando bonecas na infância com uma finalidade bem estabelecida.
Não parece muito óbvio o quão mais frequente é as mulheres falaram sobre as relações e a manutenção das mesmas? Foram as mulheres as ensinadas a trabalhar isso, aprendendo a se pôr no lugar do outro, aprendendo como é se relacionar. Nós sabemos o que é cuidado e compreensão. Nós é quem sabemos o que é ceder – e até demais. A questão é que esse aprendizado não é ruim e muito menos bobo. Toda pessoa que ame ou acredite no amor, sabe do que estou falando.

E ser a favor disso não significa que sou a favor de que todos casemos e invistamos em famílias tradicionais. É algo bem diferente: apenas que tratemos quem amamos com a devida importância, e que cuidemos todos de nossos afetos. Mas insistir nesse modelo narrado acima significa criar relacionamentos abusivos onde as mulheres são as maiores vítimas. Onde suas existências são sempre invisíveis. Onde tudo que é humano é feminino demais e pesado além da conta. Precisamos entender como abusivos esses namoros onde ficamos confusas, onde lidamos com tudo sozinhas, onde criamos diálogos mentais por não podermos falar de verdade. A história se repete.

E amigos homens, seres inteligentíssimos, revolucionários da liberdade: vocês já deviam ter pensado sobre suas próprias crises existenciais e o mundo infeliz que estamos construindo. Quando o amor – em suas manifestações – é colocado como sentimento essencialmente feminino num modelo social que diminui e ridiculariza tudo que vem das mulheres, é óbvio que vai ser uma sociedade doente.

O sentimento é algo construído para ser apenas feminino. E qualquer observador percebe o quanto as coisas femininas são inferiorizadas. E não, eu não quero amar menos. Não quero tratar os outros com indiferença. Quero ser amiga, quero ouvir quem precisa. Eu quero sim me sentir suficiente sozinha e quero que parem de ensinar as meninas que elas precisam de um marido para serem “a grande mulher por trás dele”. Mas não somos nós, mulheres, que devemos nos adequar as formas masculinas de “amor”, são os homens que devem aprender a amar com o mesmo esforço que nós fizemos!

Deixem seus filhos brincarem de boneca. E quanto aos homens crescidos, não sejam casos perdidos. Sei o quanto vocês reclamam de como os romances são “líquidos” e que os “novos tempos de internet afastam as pessoas”. A questão não é o tempo, como podem perceber. Reconheçam em vocês o desamor. Ouçam suas companheiras, elas cresceram aprendendo a lidar com seres humanos e, dessa forma, a serem humanas. Vocês aprenderão também.

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Leia também: Os homens que não amavam as mulheres

Um abraço especial pra minha amiga Jéssica Mello, com quem aprendo muito sobre – e vivo! – amor, e foi fundamental nas conclusões desse texto a partir de conversas no sofá. Te amo!

A insustentável leveza do não-orgasmo e a falsa liberdade sexual feminina

Eu sou mais uma mulher que, sob a falsa bandeira revolucionária da liberdade sexual feminina, começou sua vida sexual de forma muito precoce. Foi majoritariamente com homens – e com seus incentivos – que minhas primeiras transas se deram há 6 anos, quando eu tinha recém feito 14.

Antes de me envolver em relações sexuais, eu já me masturbava com frequência, muitas vezes no banheiro – gozava sempre e razoavelmente rápido, em paz. Nessa época eu era bem criança e, apesar de já receber olhares invasivos dos homens, não havia caído ainda na serventia compulsória de agradá-los, de existir em sua função.

Não demorou muito para que isso acabasse e me ensinassem que mulheres amadurecem mais cedo que homens. De maneira muito fácil, assimilei, como boa aluna, que era assim mesmo: os meninos da minha idade brincavam de carrinho, enquanto eu já despertava desejo sexual por onde passava – dos mais velhos, afinal, eles sim já haviam amadurecido. Então eu não me preocupava mais com brincadeiras bobas, até porque todos esperavam mais de mim.

Na escola, alguns professores me olhavam de forma diferente. Eu gostava quando eles diziam que eu era inteligente, que eu nem parecia ser tão nova – muitos diziam que eu era bem madura, que parecia ser bem mais velha. Achava ótimo, já que os meninos da minha idade não se interessavam em se relacionar com meninas, e eu já estava vivendo essa fase. Passei a ter meus amigos como bobinhos e a buscar aprovação masculina. Muitas amigas eram muito reprimidas e não falavam abertamente sobre sexo ou sobre seus corpos – mas logo percebi que todos os homens gostavam quando eu falava, diziam que eu era muito livre e diferente (o que me agradava bastante, uma vez que tudo que eu queria era ser livre).

Sentia-me muito bem por não ter tabus sexuais. Era bem-vinda nas rodinhas masculinas e falava que as meninas eram sem graça e cheias de frescura, já que os amigos falavam isso pra mim, dizendo o quanto eu era mais madura e legal que elas.

Aos 14 tive um namorado que deixava implícito que só ficaria comigo quando a gente transasse. Tive um receio, mas eu gostava dele e isso não poderia ser um problema logo pra mim. Quando aconteceu, tive muito orgulho de mim mesma, mas o processo todo foi um pouco difícil: eu me lavei muito antes, procurei uma gilete em casa, usei, e fui. Dessa vez ele gozou, eu não. Tudo bem, me disseram que ia doer muito.

Ele era bem-humorado. Às vezes fazia piada quando transávamos muito, dizia que minha vagina (buceta, né) tava tão larga quanto um túnel. Dizia que meu peito era meio separado, e sorrindo, juntava eles com as mãos, levantando-os um pouco. Falava pra eu me depilar, que tinha muito bigode, etc. Quando estávamos bem, ele disse “até que você é bonita, meio exótica.” Eu sempre fui uma mulher dentro dos padrões violentos impostos e aceitos socialmente – magra, branca – ou seja, não tive dificuldades de ser considerada bonita e agradável. Mas o poder devastador da opressão masculina é cruel e muito difícil de se identificar, principalmente quando se “ama”, e pior ainda, quando se é uma criança – fácil de dominar.

Depois dele, vieram muitos outros. Alguns eram mais sutis, mais gentis. Sugeriam que não gostavam de pelos, brincavam que vagina tinha cheiro de bacalhau, essas coisas assim. Fui aprendendo a ficar mais atraente, comprei umas revistas que ensinavam a dar prazer aos homens, uns sabonetes íntimos com cheiro de morango e passei a tomar pílula anticoncepcional, porque eles diziam que era muito chato usar camisinha. Eu já era tão livre que um deles até me disse: você é a namorada que todo homem quer! É bi, não tem ciúme e é bonita.

Passei anos transando muito. O namorado mais duradouro tentou me fazer gozar duas vezes me chupando, mas eu não consegui. Depois de uma semana ele me deu meu primeiro vibrador. Durante todo esse tempo, eu nem me masturbava mais como quando mais nova, desaprendi, – dedicava tanto meu corpo aos homens que nem pensava muito em sexo quando tava sozinha, afinal, pela regra, eu era sexualmente bem resolvida. Muitas vezes eu nem queria transar. Mas como nunca era tão prazeroso mesmo, aprendi a ceder aos namorados sem tanto sofrimento, pra agradá-los, assim eles seriam mais fiéis e não precisariam buscar outra menina. Esse namorado me falava pra eu ir à academia malhar, até pagava pra mim – dizia que minha bunda podia ser maior, era só eu querer.

Quando ganhei esse vibrador, eu já tinha uns 16 anos. Eu me sentia confortável pra gozar com meu namorado usando ele, e passei a usá-lo sozinha durante os dias que não nos víamos. Só que o tempo foi passando e o sexo começou a ser desgastante, muito porque só ele gozava e eu gozava com o vibrador – e dessa forma eu já me satisfazia sem ele. Um dia ele me disse que era pra eu não me masturbar durante a semana, porque eu perdia a vontade de transar com ele por causa disso. Repetidas vezes quando ele gozava e eu tentava me masturbar depois, continuando o sexo pro meu orgasmo, ele já estava deitado de olhos fechados (mesmo percebendo minha necessidade).

Dos 14 aos 18, foram 4 anos sem saber gozar de forma autônoma. Ninguém conseguia me dar prazer, mas eu me garantia no vibrador. Quando alguns caras percebiam meu problema, eu dizia que era super normal, que pra mim o que importava era o contato, que eu não precisava gozar sempre! Quem precisa? O sexo é bom por tudo, não precisa acabar em orgasmo. Certo. Dessa forma eu me iludi pra dar uma sensação de leveza aos homens, e continuei transando muito sem que gozasse nunca – isso pra mim era normal, desde que transei a primeira vez. Até porque em todo lugar diziam mesmo que mulher é mais difícil de gozar. Então eu me atinha aos manuais para um bom boquete.

Quando algum me chupava, eu não gostava muito – a maioria não se importava, outros não sabiam o que tavam fazendo e eu ficava fingindo prazer, eles ficavam com tesão ouvindo gemidos. Nas raras ocasiões onde era mais ou menos bom, eu tentava relaxar, mas era torturante e impossível: ficava preocupada com meu cheiro, lembrava das revistas que diziam “se tiver um pelinho fora do lugar, o amado vai fugir! Se tiver ferida de depilação é feio!” (acrescentar aqui suas milhares de preocupações quanto mais fora do padrão desejado de mulher você for), pensava que de qualquer forma não gozaria, porque a maioria só chupava durante 5 minutos – quando começava a ficar bom, acabava. Fora isso, quando durava mais, eu já me preocupava por estar sendo cansativo pro rapaz e me sentia um peso por ser tão complicada. Os filmes pornôs mostravam umas três lambidas e só, mesmo.

Comecei a falar pra todos eles que eu tinha um problema, que não conseguia gozar acompanhada, mas que não era pra eles se importarem com isso. Falava isso quando me sentia culpada por não gozar, pra evitar o constrangimento de o cara resolver tentar e falhar. E eu realmente achava que isso era um problema que eu tinha, como uma deficiência, algo de frigidez.

Com 18 anos foi a primeira vez que eu consegui gozar na boca de um homem. Foi extremamente difícil e demorado, mas ele me deu uma mínima segurança com meu próprio corpo e disse estar disposto. Mínima segurança porque ele gostava também de parecer livre, mas na verdade era muito opressor, ainda que mais sutil. Passei a usá-lo nas minhas desculpas: eu tenho dificuldade mesmo, só uma pessoa me fez gozar na vida. Assim os caras transavam comigo com menos pressão.

Aos 19 foi quando entendi melhor tudo o que passei, meus relacionamentos abusivos e minhas feridas consequentes deles. Fiquei um bom tempo sozinha, passei a amar mais meu corpo, entendi meus pelos e meu cheiro. Entendi a cultura pedófila onde meninas são entregues banalmente a homens bem mais velhos, onde mulheres precisam se depilar totalmente para parecerem meninas.

Entendi que dominar meninas é muito fácil, e que moldá-las a seres frágeis e submetidos é natural, e que tal cultura é muito funcional para explorar nossas crianças. Numa sociedade machista, onde o homem detém poder, as mulheres servem como suas propriedades – e é muito mais fácil controlar uma menina em fase de aprendizado, buscando sua autonomia. Destruir sua auto-estima e confiança nessa fase é ainda extremamente eficaz, pois é algo que possivelmente a perturbará para o resto da vida – seja por traumas consequentes ou por absorver tal criação.

Voltei a conhecer meu próprio prazer, como comecei na primeira infância antes de roubarem isso de mim. Descobri que todo o sexo que já havia feito era apenas para agradar homens, reproduzindo inclusive imagens de uma indústria pornográfica – que violenta mulheres – para ser visualmente erótico. Nada daquilo havia me dado realmente prazer, e pra me enquadrar no status mulher livre sexualmente, me podei tanto que tinha vergonha do meu corpo. Tive que passar por situações horríveis que uma menina de 14 anos nunca deveria ter passado. Aprendi que pra eu gozar tem que ser tudo diferente, do meu jeito – e não é nada do que mostram por aí. Tenho amigas que dizem saber gozar, mas que raramente conseguem, por terem medo da reação do cara. O nosso prazer está tão em prol do homem, que é normal fingir orgasmo, um gozo manjado de filme, para que ele fique contente e ache que é um ótimo parceiro.

Quando ouço que “feminista é tudo mal comida”, percebo o quanto essa frase é útil pra que as mulheres não se libertem de verdade e continuem agindo em função dos homens. Quanto mais você é ciente do próprio corpo e de tudo que te violenta, mais você fugirá disso e mais prazer consigo mesma você terá. Ou seja, dar prioridade pras mulheres ao invés dos homens, foi fundamental pra que eu aprendesse a gozar.

Ainda tenho dificuldade pra gozar, e se não sentir que o outro se importa, me sentirei péssima. É muito fácil voltar a pôr meu próprio prazer em segundo plano, e sei que não me desamarrei disso. A vida inteira tendo meu prazer reprimido, tido como algo errado, e só considerável quando explorado para o bem masculino. Ainda sinto as amarras da obrigação de fazer meus companheiros muito satisfeitos. Ainda recebo deles os olhares de decepção quando não gozam. Ainda transo sem vontade para que eles não fiquem estressados. Ainda sofro. Mas apesar de tudo isso, tenho consciência de que não é um problema meu, e quando me disponho a me fazer gozar, principalmente sozinha, consigo muito rápido, ao contrário do que os manuais ensinam sobre nossa eterna jornada.

Isso é compreender que a liberdade sexual feminina é usada estrategicamente para manutenção de privilégios de dominação patriarcal, e que de liberdade não há nada. Hoje em dia, com 20 anos, ainda acho que nem todo sexo precisa acabar em orgasmo. Mas por lembrar de como fui ofuscada atrás dessa máscara para prazer do outro, tenho cuidado com tal afirmação.

A insustentável leveza do não orgasmo é não desmanchar em preguiça e falta de energia na cama após um gozo, como meus companheiros fazem: fico leve e disposta. Mas é também eternamente carregar esse peso – que pesa em todas as mulheres – sobre meu ser.

AMARras

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