salgo

o primeiro orgasmo
de dois mil e quinze
eu me dei e dei
de volta à água
que me expandiu
em impossíveis minutos
eu boiei enquanto
minha pele salgava
quando o sol tocou
o mar eu ardi junto
nesse momento era
queimada todo o
mundo e não houve
um olho sequer que
foi capaz de mover
minha mão
às seis da tarde
meu gozo era peixe
correndo na maré
pela primeira vez
molhou sem precisar
ser secado
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Livramento

Vi de perto hoje ser tempo de peixe
Como de praxe
pisei areia na renda do dia
que o mar junto se arrendava

Um menino brincante onde o bigode o anzol poria
não arredou meio pé
Sob meus olhos laranjava a infância encorajada

O horizonte saturava água alta
cor límpido chumbo
Entrava perfeito aquele livro azulzinho
na paleta colorida amarelada até rosar

Apontando meu objeto às direções que o olho via
Até notei que servia a canga também
Todavia
dela já me enjoara
e a saia cor caneta a cintura me apertava

Continuei livrar a cena
Livrei dez barquinhos de sua possível simetria
Livrei também a linha da vara na beira
Livrei dos pescadores a caça
quando não pescaram o que eu fazia

 

10.16

Quando a vida foi um mar de ressaca

Em um momento comecei a me sentir vez ou outra imersa dentro de um mar muito forte, – desses grandes, nervosos. eu, que passei a vida admirando águas, crescendo em volta de grandes lagoas, me deparando com rios suaves e poças de chuva de verão, estava considerando uma boa ideia essa dificuldade marítma. pensei, talvez, ser uma característica de uma nova fase que ainda não conhecia. uma mais séria, cheia, cheia de realidade, que me aguardava ali – observando meus passos de infância de conta-gotas. entusiasmada, enchi-me de orgulho pelo o que havia alcançado: afinal, sempre me fascinaram as ressacas. Ressacas que tudo levavam, cheias de autonomia e força, modificando a estrutura do lugar por onde passavam. quando elas vinham, eu as olhava imóvel, silenciada e constante. como se elas me continuassem. a vida foi assim.

de pouco pra cá, senti que uma delas resolveu mesmo me continuar, e é disso que queria falar pra gente. eu mergulhei totalmente nesse mar furioso – algumas pessoas até me diziam que essa deveria ser assim -, e ignorando meus conhecimentos de vida dentro d’água, entreguei-me a essa condição como algo novo. como poderia ter previsto, eu cansei. nadar em um mar de ressaca é desgastante e perigoso, sim, e insistir nesse nado requer um nível desnecessário de energia – que deve ser direcionado apenas pra esse fim. será que eu esqueci tudo o que tinha aprendido? vovó me dizia sempre que mar não tem cabelo. e então eu precisei encontrar um fôlego adormecido pelo desespero do afogamento, e utilizá-lo pra me deixar voltar à margem.

tentando acalmar minha mente no meio desse caos, fui resgatando o que já havia dentro de mim. eu sabia bem como sobreviver dentro do mar sem encostar os pés no fundo, mas no meio de tanta confusão, as coisas de perderam. fui me concentrando em não afundar, e aos poucos, fui compreendendo os métodos que fazia para conseguir manter-me respirando ali.

eu poderia aproveitar o movimento da ressaca e deixar que ela por si mesma lançasse meu corpo para a praia novamente. mas isso significava precisar de força suficiente para suportar as batidas majestosas em minha cabeça e intermináveis minutos sem respirar. e, caso conseguisse, provavelmente quando chegasse próximo a areia, já estaria quase definhando, a ponto de ser puxada novamente. não parecia uma boa ideia. eu poderia permanecer no fundo e nadar até longe, alcançando uma outra praia onde não houvesse ressaca. também seria muito esforço e, se eu não conseguisse no meio do caminho, acabaria retornando para onde comecei. a ressaca ali permanecia. não eram boas opções.

lembrando as palavras de vovó, pensei… ainda que o mar não tenha cabelo, eu ainda tenho. a opção pra aquilo tava em mim e só precisava buscá-la. nadei, nadei, nadei. nadei até muito distante da praia, onde o mar já fazia o trabalho de levar-me pra longe sem que eu me desgastasse tanto. ali, ainda que a corrente me fizesse viajar, não havia a violência das ondas. por um tempo permaneci, lembrei que podia boiar, e desse jeito, consegui ganhar tempo pra organizar as ideias e descansar um pouco. conclui que foi uma péssima ideia me lançar naquele mar e que agi sem dar importância aos meus próprios instintos – que sabiam bem que era uma ideia péssima. impulsionada por influências exteriores me confundi. por sorte, ainda havia um pouco de mim mesma a quem recorrer.

eu não precisava lutar contra aquela força do mar, que era maior que a minha naquele momento. eu podia focar em sobreviver com minha destreza. boiando, então, deixei a ressaca estar, sem intenção de bater de frente com ela. ela permanecia ali, bem próxima de mim e querendo me pegar de volta a qualquer momento. com o tempo, ela foi diminuindo e acalmando, e eu, ainda cansada, mas um pouco serena.

me adequando ao balanço, fui conseguindo me locomover sobre os vai-vens e resolver os imprevistos aceitando a presença deles. quando chovia era ruim, mas por mais ruim que fosse, não ia parar de chover apenas por ser um incômodo para mim naquele momento. até porque, a chuva ali incomodava, mas me foi necessária em outros tantos dias quando estive me alimentando na terra – e ao mundo inteiro estava sendo essencial. a cada vez que a ressaca aliviada, eu conseguia me aproximar da costa, até já conseguir enxergar as casas lá longe.

o mar ainda não tava totalmente manso, mas ali eu já sabia como fazer. me sentia um pouco mal por ter esquecido de me ouvir, mas satisfeita por estar voltando pelo caminho conhecido. próximo à beira ainda quebravam grandes ondas, mas eu lembrava como lidar com elas – eu sabia como furá-las, passando por baixo, sem deixar que elas esmagassem meu corpo. eu realmente não precisava enfrentar maior fúria daquelas águas. não era necessário que eu me submetesse àquilo, que deixasse meu corpo ser entregue e sofresse ralados ao me jogar na areia, chacoalhando consigo tudo ali, dentro da enorme espuma branca que enroscava-me pouco tempo antes. fui capaz de deixá-las um pouco mais quietas, então nesse momento eu já lembrava de como viver leve no mar. eu mergulhava por dentro das ondas antes que elas estourassem e, para cuidar de meu corpo cansado, aproveitada o ângulo exato do mergulho – onde eu pudesse sentir a massagem do estouro ainda sobre as costas.

eu já podia sentir o chão sob meus pés e com isso tinha certeza do retorno de minha lucidez. me senti mais orgulhosa do que quando dei aquele salto ingênuo. papai me disse algumas vezes que a gente tem que respeitar o mar, e que quando perdemos o medo é quando o pior acontece. me senti aliviada por ter considerado aquela ressaca algo muito maior do que poderia suportar durante minha vida. essa nova fase não precisa me socar na areia e me afundar em valas para ser real. eu sempre soube lidar com o mar e sempre soube a hora certa de entrar e de sair. perto da praia eu já sentia prazer e, apesar do cansaço e vontade de deitar em casa, optei por não ter pressa – o tempo passava desgovernado ali bem próximo de mim. naquele humor das ondas, elas já conseguiam me manipular sem me machucar e dessa forma eu me aproximava cada vez mais, vagarosamente. pude de novo voltar a reparar as gaivotas, os barulhos de vozes distantes e um batuque de alguma reunião festeira. provavelmente era fim de semana. eu nesse período me perdi no tempo, mas agora não sofria com isso.

quando vinha uma onda maior, eu me aproximava dela e a utilizava para me elevar: quando chegava ao seu ponto mais alto de água, conseguia ver pedaços de terra adiante, que antes não era capaz. essa sensação me extasiava e me fazia pensar em como essas ondas há um tempo atrás tinham potencial pra me elevar tão alto quanto tinham pra me desabar ao infinito.

assim fui indo, até que o mar se despediu, me colocando gentilmente na faixa molhada de areia, acariciando meus pés com sua renda branca que ia e vinha – nunca precisando escolher se queria só ir ou ficar.

 

Para DArVIda, com amor,

Júlia.