Túmulo

Imagino estiver-me morta estiver ainda em moda descobrir palavra póstuma; estremeço o encaixote dos meus as; vezes que disse flor cismariam desabrochar; Quem me testemunhara em corpo inventaria motivo do meu vestir monocromático: diagnóstico de loucura monótonica; e ninguém mencionaria minha desabilidade de expressar estilo muito menos não ser isso o que me importava; nem também à Rosinha ser namorada; após doze anos quase falecida enfim ida; Eu me reviraria de tanto túmulo:

Imagino tivéssemos mortas aquele dia no carpete: noticiariam suicídio pelos amados homens perdidos; você se lembra bem que conversávamos enérgicas depois de feito e comido o macarrão quando demos conta do gás vazado; de cúmplices mágicas seríamos desfeitas apaixonadas trágicas.

Imagino tivesse ontem o cara me matado com aquela risada diminuta olhando a marca de minha sentada molhada; pensava o quê? pingou de tanto medo ou de não saber se controlar; ou vazou nojenta. a pior das hipóteses e não duvidada: teria eu morrido de clandestina em método criminoso. O dito não matou-me graças à chuva bem tomada.

Imagino tivesse morrido hoje mesmo; após encontrariam hemorragias na colcha do sofá dizeriam que foi o quê dessa vez? maluquice de minha parte ou de novo os mesmos homens de antes; que eu haveria reclamado qualquer coisa ideológica dando murro em ponta de faca daquele meu jeito insistente e me arrependido esfaqueando o mesmo murro; eu morragia mesmo mas seria outra mentira que não daria conta de que nesta lua cheia eu sangrei só pernas e panos.

Já tarde

Eu quero ir embora da sua casa
Mas antes eu quero
Arreganhar minha buceta
te rasgar com os meus pêlos
observar o horror na sua cara
Te ouvir dizer que nao caibo
no porta-retrato da sua sala.

Antes de ir embora
Quero te esfregar que não estou morta –
ainda que você me engane –
eu tenho sangue!

Enquanto você me expulsa,
antes de berrar “sua puta!”
quero te mostrar que meu ventre
ainda pulsa.

Te questionar as tardes de domingo
Quando sobre aqueles corpos
você goza consumindo.

(Te perguntar o que você fez com ela dormindo.)

Quero então que me destrate
Que me culpe pelo seu desastre
Arremesse-me sua injúria
Enquanto alimento minha fúria.

Logo não mais motivo existirá
para arrastar tal demora
Passado tudo isso
Mais uma vez, eu posso ir embora.

29.10.15